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Garrafa 287 – Em uma manhã de sol   Leave a comment

Em sua obra “Grande Sertão: Veredas”, repleta da sabedoria de homens simples profundamente conectados com seu ambiente natural, já nos dizia João Guimarães Rosa: “Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo.” Ou, na linguagem da moderna neurociência: percebemos o mundo por meio dos nossos sentidos, filtrados pelas nossas crenças e valores atuais e experiências anteriores, num processo de contínuo aprendizado. O mesmo fato, presenciado por duas pessoas diferentes, suscitará diferentes interpretações.

Mas gosto de pensar que possa haver algo mais, além de nossas limitadas e relativas interpretações individuais: O todo! O Absoluto! O Uno!

Enquanto o dia amanhece, refletindo a respeito a partir das minhas próprias percepções, imagino que talvez somente aqueles mestres iluminados, que alcançaram um nível de consciência além da mente, vejam as coisas tais como elas realmente são, com sua vibração unica e, ao mesmo tempo, conectadas de maneira harmônica com todas as outras coisas do Universo. Para os ainda não iluminados, como a maioria de nós, talvez um breve lampejo dessa visão nos seja permitida apenas no silêncio de uma fervorosa oração, em um estado de profunda meditação ou amorosa contemplação. Ou talvez ainda, quem sabe, para duas pessoas verdadeiramente apaixonadas, durante aquele beijo, no encontro de corpos que se entregam naquela doce vertigem ou, simplesmente, naquela troca de olhares… Quem sabe também, em decisão de copa do mundo, minuto final e gol de desempate a favor da nossa seleção… Nesses breves momentos, parece que vemos o mundo como ele realmente é… e ele é perfeito do jeito que está!

Enquanto isso não acontece, nessa linda manhã de sol, ouço o canto de uma cigarra e penso comigo mesmo:

nem todos verão,
no canto da cigarra,
o mesmo verão.

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Estrada do sol” na voz de Nana e Dori Caymmi

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Garrafa 276 – Início de primavera… Quase verão… Quase inverno   2 comments

Apesar de ter ido dormir depois de uma da madrugada, acordei cedo pra buscar o filho que chegou para o fim de semana, vindo de Belo Horizonte, sempre motivo de alegria para toda a família! Além da presença física, presentinhos e mimos na mochila, diretamente de sua recente viagem à Itália e Alemanha. Meu mimo veio diretamente do Salão do Automóvel de Frankfurt. Super chique! Diretamente do stand da MINI, ainda não é o meu Audi A4, mas… Tudo bem!

Na chegada, meu amigo Bem-te-vi nos recepciona com seu canto. Nessa bela manhã de primavera, de ar fresco e limpo, mais motivo de celebração com café quentinho e pãozinho torrado na chapa!

Passei o resto da manhã fazendo a revisão de texto do artigo que será publicado em breve no livro “Leader Coach” do qual participo como coautor. Acho que ficou bom, apesar de ter sido obrigado a lidar com a frustração de cortar muito do que gostaria de dizer, por limitação de espaço. Depois de olhar para o papel várias vezes, em inúmeras revisões, pressinto a cegueira para os “gatinhos” do texto e o pedido de ajuda ao meu amigo Gil, consultor, escritor e “babilaca das letras”, para o seu parecer final, é inevitável. Aguardo por seus comentários precisos e pertinentes. Escolho a frase de abertura, na verdade um breve haicai já postado por aqui sobre o Líder Coach. Seleciono também as três perguntas poderosas para provocar a reflexão dos futuros leitores, que desejo sejam muitos milhares, por que não milhões?

Perdido em pensamentos, sobre os motivos inconscientes da procrastinação que fez com que meus outros artigos e meus próprios livros ainda não tenham sido publicados, passa pela mente a imagem da cigarra e da formiga, aquela da fábula… E, de repente, o canto de uma cigarra me atinge como um raio!

Taquilosparo! A primavera mal começou! Será que perdi alguma coisa? A “máquina do tempo” ataca outra vez? Isso não é “coisa de verão”?
O primeiro canto de cigarra, depois do inverno, também será motivo de celebração, ou apenas e, mais ainda, de preocupação? Ecos de uma terrível premonição – a ameaça do inverno do próximo ano? Formigas trabalhadeiras em festa, cigarras nem tanto…

O tempo não para! Como diz a letra da musica “E mi viene da pensare” do grupo de rock progressivo italiano “Banco del Mutuo Soccorso”: “A primavera é inexorável!”. E penso com meus botões, ao som da cigarra: O verão é inexorável! O outono é inexorável! O inverno é inexorável! E a música continua…

Antes de voltar ao trabalho, atropelado por reflexões mirabolantes, neutrinos, etc… Pausa para um breve haicai:

cigarra cantou
ainda primavera…
verão começou!

Eduardo Leal

Foto de autor desconhecido

Publicado 01/10/2011 por Eduardo Leal em Haicai, Haikai, Haiku, Prosa

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Garrafa 186 – Meditando ao entardecer   Leave a comment

ao entardecer
canto de duas cigarras
mantra e sutra

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Tuesday Afternoon” com The Moody Blues

Garrafa 19 – A Cigarra   Leave a comment

casca oca
a cigarra
cantou-se toda

Paulo Leminski
Foto de autor desconhecido

Garrafa 7 – Paisagem   Leave a comment

A mesma paisagem
escuta o canto e assiste
à morte da cigarra…

Matsuo Basho
Foto de Autor desconhecido

A cigarra

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