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Garrafa 512 – Grillus interruptus   Leave a comment

Durante retiro forçado no sítio da família, já há mais de uma semana, e que tudo indica deve se estender pelo período de carnaval, um dos maiores benefícios recebidos de bom grado, quem sabe efeito colateral não planejado, mas muito bem-vindo, é a ensurdecedora quietude do lugar, quando comparada com a barulheira constante da cidade.

Sou grato por isso!

Quietude real e virtual, já que no fundo do vale não há sinal de celular e, portanto, também não há sinal de Internet. Aqui, o pretenso “smartphone” transforma-se em “stupidphone”, ou no máximo em uma “wisecamera”, muito mais dependente da sabedoria do seu operador e dos temas selecionados para registro, do que de qualquer recurso tecnológico embarcado.

Sinal e conexão eletrônicos só nas breves e eventuais idas à cidade, com o propósito de comprar remédios, levar, trazer ou visitar um vovozinho arteiro e teimoso que, internado em um hospital, ou apenas realizando consulta em um pronto-socorro, do alto de seus 91 anos bem vividos, continua agindo como se o seu corpo ainda fosse de apenas 30 anos. Nos intervalos, foge com surpreendente agilidade do repouso recomendado e necessário, para manter fidelidade aos seus hábitos de trabalho de grande intensidade.

Quando acordo bem cedinho, antes do nascer do sol, até o bambuzal parece estar momentaneamente congelado e silencioso. Nem uma minúscula folha se move antes da primeira brisa da manhã. Só posso perceber, às vezes, o zumbido de algum inseto, quando bem apuro o ouvido e a atenção. Momento propício para a prática meditativa, seguida de longos períodos de reflexão e trabalho contínuo e profundo. Até a hora de interagir novamente com o vovozinho.

Ao longo do dia, e até o entardecer, o silencio é quebrado algumas vezes por uma sinfonia de cantos de galos, galinhas e diversos tipos de pássaros. Algazarra de coito e canto de araras e maritacas, nesta época do ano. Isso, sem mencionar eventuais relinchos de cavalos, guinchos de saguis, latidos dos cães da vizinhança e do nosso velho Nick, e miados de três gatinhos. Dois gatos e uma gata estão cada vez menos desconfiados e mais amistosos, enquanto frequentam nossa casa vindo de algum lugar desconhecido da vizinhança.

Ao anoitecer, tendo como aperitivo o coaxar dos sapos, o prato principal é o canto dos grilos que povoa a escuridão da noite que tudo envolve.

Num dos finais de tarde dos últimos dias, talvez inspirados pela algazarra e saliência das maritacas, momentos antes, um casal de grilos ensaiava alguma nova posição do Kama Sutra, antes do anoitecer. Emitiam sons característicos que algum entomologista poderia certamente catalogar em seu Moleskine, se também estivesse observando a cena junto com um dos três gatinhos que me acompanhava em uma caminhada pelas redondezas. Nossa ideia, pelo menos a minha, era apreciar o por do sol e a beleza do lugar.

Sol aproximando-se da linha do horizonte, distorcido e abreviado pelo contorno das colinas que nos cercam, céu alaranjado, gatinho encolhido calculando a distância do pulo com precisão, esperando o momento certo e… ZAP!

Grillus interruptus!

Só inventei esse neologismo depois, lembrando da expressão “coitus interruptus”.

Freud explica, ou não…

Pausa para um breve haicai:

coito e canto,
grilos interrompidos,
pulo do gato!

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

o-pulo-do-gato

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Garrafa 465 – Todo dia é dia!   Leave a comment

Ah! O outono! Noites e dias lindos, céu claro, temperaturas amenas, brisa refrescante, madrugadas silenciosas…

Depois de uma noite agradável de encontros familiares com mãe, irmã, filha, cunhado, sobrinhos e sobrinhas, nessa madrugada tive sonhos alvoroçados, coração inquieto, alma esvoaçante percorrendo lugares distantes em busca de pessoas mais ainda, mente confusa… Minha caneta era uma pena…

Despertei ainda no escuro e me levantei para dar prosseguimento às minhas leituras e, de presente, pude assistir da varanda a um belo amanhecer. Um pouco mais da metade da lua ainda visível em sua trajetória rumo ao poente, com seu corpo no formato em “D” cada vez mais decrescente, mas ainda não formalmente minguante que o será apenas no inicio da próxima semana… O azul surgindo da escuridão em um céu sem nuvens… E o calendário anunciando a data de aniversário de pessoas queridas, no dia do índio…

E me dou conta de que todo dia é aniversário de alguém, não só de alguma pessoa, mas também de um novo dia que é sempre único. Todo dia é aniversário de nascimento e morte desse único dia… Que nasce e morre para dar lugar a outro dia… Que nasce e morre para dar lugar a outro dia…

E todo dia é dia de viver.

Feliz Aniversário!

E a brisa da manhã sussurra ao meu ouvido:

que lindo dia!
mais um dia de festa,
de um novo dia!

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Para Lennon & McCartney” na voz de Elis Regina

Todo dia é dia

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