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Garrafa 476 – Se bem me lembro   Leave a comment

Na manhã nublada de fim de outono, durante a meditação matinal, uma lufada de vento frio e o canto de um bem-te-vi, trazem inspiração para um breve haicai:

canta bem-te-vi
e bem-me-lembra de quem
eu bem-não-vejo!

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

Bem-te-vi 2

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Garrafa 372 – Bem-te-vi atônito   1 comment

No terreno ao lado do nosso prédio, onde antes havia uma igrejinha evangélica, será construído um novo edifício, durante os próximos meses.

Nenhum preconceito contra o progresso, a construção civil, ou contra a oferta de novas moradias no Jardim Oceânico, na Barra da Tijuca. Apenas observações a respeito do que vejo da varanda.

Na entrada desse terreno, trazendo um pouco de saúde e bem-estar para quem tinha olhos para ver, havia um pequeno jardim, com grama, flores e algumas poucas árvores. Destacando-se entre elas, um pinheiro enorme, servia de abrigo e observatório para aves de todos os tipos que o frequentavam de passagem, ou como refúgio noturno em seu sono vigilante. Haveria algum pequeno ninho por lá? Meu amigo bem-te-vi costumava pousar no seu ponto mais alto para espalhar seu canto aos quatro ventos, nas primeiras horas da manhã…

Ontem, da varanda, acompanhado à distância por apenas outra moradora que viu tudo bem de perto, registrando algumas imagens com seu Tablet, assisti penalizado à derrubada desse pinheiro que, certamente, criava obstáculos ao bom desenvolvimento da futura obra. Homens chegaram silenciosos e, machado em punho, colocaram abaixo o pinheiro saudável e majestoso.

Sempre me entristeço ao ver cenas como essa, a derrubada de uma árvore, mesmo que seja por alguma causa que a justifique (confesso que tenho muita dificuldade para encontrá-las) e tudo isso feito com a devida autorização da Prefeitura. E não posso garantir que esse seja o caso. Espero que sim. Que tenha sido inevitável e que suas raízes e início do tronco sejam preservados, já que ainda lá permanecem, para permitir que a árvore cresça novamente e seja incorporada ao futuro jardim que, também espero, esteja presente na entrada do novo prédio. Quem sabe?

Hoje, como sempre faço, depois da meditação matinal, observei a paisagem da varanda, o céu sem nuvens e a passarada que costuma frequentar as árvores da vizinhança: Vários voos erráticos, pousos abortados de maneira frenética no que antes deveria ser um abrigo seguro e que agora é preenchido apenas pelo ar fresco da manhã de outono.

Espaço vazio! Bit zero! Nada! Picas! Porra nenhuma!

Posso imaginar seus cérebros pequeninos, sinapses em polvorosa, buscando explicações para o inexplicável e inesperado… Acompanhando seus voos confusos, e tentativas de pouso frustradas, também fiquei assim…

Pausa para um breve haicai:

pinheiro no chão
bem-te-vi atônito
onde compaixão?

Eduardo Leal
Fotos de Eduardo Leal

Bem-te-vi no topo do pinheiro em 30/03/2013

Bem-te-vi no topo do pinheiro em 30/03/2013

Início da derrubada do pinheiro

Início da derrubada do pinheiro

Preparação final da derrubada

Preparação final da derrubada

Pinheiro no chão...

Pinheiro no chão…

Garrafa 274 – A Máquina do Tempo   1 comment

Nos últimos dias, véspera da chegada da primavera de 2011, noticias em sites científicos de todo o mundo dão conta de que pesquisadores europeus encontraram as primeiras evidencias de partículas subatômicas – os neutrinos – viajando mais rápido que a velocidade da luz. Esses resultados, se confirmados, poderiam significar que é possível teoricamente “enviar informações para o passado”. Em outras palavras, a viagem para o passado poderia ser possível…

Imediatamente, começo mentalmente a arrumar minhas malas e a escolher o meu destino. Quantas opções interessantes!

No quintal arborizado da casa da infância, anos sessenta, sentir novamente, quase ao mesmo tempo, o gosto e o contraste dos sabores da manga, da pitanga, da goiaba, do jambo e da amora!

Vivenciar o entusiasmo de fabricar, com inesperado sucesso, um dos meus primeiros artefatos que faziam parte do kit de sobrevivência na infância, junto com cinco bolas de gude coloridas – meu estilingue. Ele era construído com forquilha cuidadosamente selecionada e serrada de um ramo seco e firme de goiabeira, complementado com elástico recortado da câmara de um pneu careca do velho Mercury do meu pai e com o pequeno retângulo de couro macio também recortado de um antigo sapato usado pela minha mãe.

Esse prodígio de engenharia bélica primitiva era municiado e carregado com caroços redondos e firmes de pitangas maduras. Era preciso comer muitas delas para manter os bolsos cheios da munição usada nas disputas com meus amigos da vizinhança. Acho que poderia fazer novamente esse sacrifício…

Quem sabe poderia agora me esquivar do impacto produzido por um desses caroços, que me atingiu o rosto, quando saí do esconderijo por detrás da parede da cozinha e passei a temer a mira precisa do meu amigo Mané!

E impedir o gesto impensado de alvejar aquela rolinha distraída no galho da mangueira… Sua pequena carcaça ainda deve estar sepultada por entre as raízes do jambeiro, após cerimonial fúnebre providenciado imediatamente com profundo arrependimento…

Se meu novo amigo Bem-te-vi soubesse desse passado, ainda cantaria todo dia pra mim?

Depois de consultar cuidadosamente os registros de minha máquina do tempo, finalmente me decido por um destino mais recente… Ah! Aquele beijo… Relâmpagos iluminando o céu da boca…

Tá marcado!
Bagagem pra que?
Naquele momento estava pelado…

Já sentindo de novo aquela vertigem, sigo balbuciando um breve haicai…

desengonçado,
no lombo de um neutrino,
volto ao passado…

Eduardo Leal

Fotos de autores desconhecidos
Instruções de utilização: Ouvir “Time” com Alan Parsons Project

Garrafa 270 – Vi o bem-te-vi   2 comments

Tenho mantido um relacionamento cordial com um bem-te-vi, desde que me mudei para o meu novo endereço e me tornei seu vizinho, no ano passado. Sua casa fica na pracinha arborizada que vejo, afortunado que sou, da minha varanda e pela janela do meu quarto.

Duas coisas me indicam a chegada de um novo dia: o olhar amoroso de minha companheira de vida, sempre ao meu lado, e o canto do bem-te-vi.

Ouço seu canto matinal, mas quase nunca o vejo, camuflado que fica entre as folhagens. Quando bem-nos-vemos, é motivo de celebração. Bem-te-vi! Bom dia!

vi o bem-te-vi
que bem-me-vê de manhã
bem-vindo dia!

Eduardo Leal
Foto de Eduardo Leal – A casa do Bem-te-vi
Instruções de utilização: Ouvir “I am the day” com Libera

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