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Garrafa 225 – Sermão silencioso (para Mahakasyapa)   Leave a comment

de uma flor… Ah!
contemplar a beleza…
iluminação!

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

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Publicado 26/04/2011 por Eduardo Leal em Fotografias, Haicai, Haikai, Haiku

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Garrafa 222- A-ah, Matsushima, ah!   Leave a comment

Estive na região nordeste do Japão com minha família, em janeiro de 2008, mais precisamente em Sendai, Matsushima e Shiogama e acompanho com tristeza e preocupação as informações que chegam a cada instante dando conta do maremoto e sua subsequente tsunami, ocorridos no dia de ontem naquela região. Preocupação com a falta de notícias de alguns amigos e amigas que fizemos por lá e tristeza pelas milhares de vidas interrompidas e também pelos prejuizos materiais e culturais decorrentes dessa tragédia.

Além das imagens de devastação em Sendai e arredores, minhas pesquisas pela Internet revelaram, até o momento, apenas duas fotos de trens descrrilados em Matsushima (link1 e link2), o que me faz pensar na triste possibilidade de danos ainda não revelados, por dificuldades de acesso ao local.

Trago comigo as melhores lembranças, no sopro gelado de uma fria manhã de inverno, de um dos lugares mais bonitos que já conheci. Fecho os olhos por um momento e vejo a Baia de Matsushima com suas centenas de ilhas rochosas cobertas de pinheiros, sendo sobrevoadas por gaivotas que insistem em seguir o rastro deixado pelo nosso barco e nos observar com olhares curiosos e inquisidores. Vejo ainda alguns dos seus pequenos tesouros arquitetonicos e culturais à beira mar tais como o Templo de Zuigan-ji e seu silencioso e misterioso jardim zen. Será que meu firme desejo de regresso, da próxima vez na primavera, será interrompido por um outro vento gelado, desta vez carregado de radioatividade, tornando essas paisagens proibidas por décadas, como as cercanias de Chernobil? Um calafrio incomodo me percorre a espinha!

A partir de 1689, durante cerca de quatro anos, o sensível poeta Matsuo Basho percorreu as trilhas da região norte da ilha de Honshu, no arquipélago do Japão, tendo como iluminação apenas o clarão da lua cheia… Durante sua passagem por Matsushima, quase sem palavras, deixou-nos o registro de sua embevecida admiração, por meio do seguinte haikai:

Ah Matsushima!
A-ah, Matsushima, ah!
Ah, Matsushima!

 

Revendo as fotos que tirei na ocasião de minha breve visita ao jardim zen do templo de Zuigan-ji, uma delas me chama a atenção, como distantes ecos premonitórios dos sábios monges que o idealizaram, com a imagem do arquipélago do Japão cercado de tsunamis, nas águas nada tranquilas do Pacífico…

A-ah, Matsushima, ah…

Jardim Zen em Zuigan-ji

Foto de Eduardo Leal

Garrafa 213 – Curso de Escutatória   2 comments

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória.

Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir.

Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular…

Escutar é complicado e sutil.

Diz Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa) que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma”. Filosofia é um monte de ideias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.

Parafraseio o Alberto Caeiro: Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma.

Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.

Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos…

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios.

Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial.

Aí, de repente, alguém fala. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio.

Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais. É preciso tempo para entender o que o outro falou.

Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, […]. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as ideias estranhas.

Na nossa civilização, se eu falar logo a seguir são duas as possibilidades.

Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado”.

Segunda: “Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou”.

Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.

O longo silêncio, na verdade deve querer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou”.

Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.

Eu comecei a ouvir.

Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. A música acontece no silêncio.

A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.

Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio.

Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também.

Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.

RUBEM ALVES
Ilustração de autor desconhecido

Garrafa 146 – Religiosidade 1   Leave a comment

“A emoção mais bela que podemos experimentar é o sentimento do mistério.

É a emoção fundamental que está no berço de toda a verdadeira arte e ciência.

Aquele que desconhece essa emoção, aquele que não consegue mais se maravilhar, ficar arrebatado pela admiração, é como se já estivesse morto; é uma vela que foi apagada.

Sentir que por trás de qualquer coisa que possa ser experimentada há algo que nossa mente não consegue captar, algo cuja beleza e solenidade nos atinge apenas indiretamente: essa é a religiosidade.

Nesse sentido, e apenas nesse sentido, sou devotamente religioso.”

Albert Einstein
Foto NASA – Helix Nebula

helix-nebula-nasa

Garrafa 117 – Maturidade   Leave a comment

O homem torna-se maduro no momento em que começa a amar em vez de precisar. Ele começa a transbordar, a compartilhar; começa a dar. A ênfase é completamente diferente. Com o imaturo, a ênfase está em como conseguir mais. Com o maduro, a ênfase está em como dar, como dar mais, e como dar incondicionalmente. Isso é crescimento, maturidade, chegando para você.

Uma pessoa madura dá. Só uma pessoa madura pode dar, porque só uma pessoa madura tem. Então o amor não é dependente. Então você pode estar amando quer o outro esteja aí ou não. Então o amor não é um relacionamento, ele é um estado.

O que acontece quando uma flor desabrocha numa floresta sem ninguém para apreciá-la, ninguém para sentir a sua fragrância, ninguém para passar e dizer: “linda”; ninguém para saborear a sua beleza, seu êxtase, ninguém para compartilhar – o que acontece com a flor?

Ela morre?
Ela sofre?
Fica aterrorizada?
Comete suicídio?

Ela continua desabrochando. Não faz diferença alguma se alguém passa por ela ou não; é irrelevante. Ela continua espalhando sua fragrância aos ventos. Continua oferecendo sua alegria a Deus, ao Todo.

Osho
Em “Relacionamento, Amor e Liberdade”

flor branca

Garrafa 84 – O Convite   Leave a comment

Não me interessa saber como você ganha a vida. Quero saber o que mais deseja e se ousa sonhar em satisfazer os anseios do seu coração.

Não me interessa saber a sua idade. Quero saber se você correria o risco de parecer tolo por amor, pelo seu sonho, pela aventura de estar vivo.

Não me interessa saber que planetas estão em quadratura com sua lua. O que eu quero saber é se você já foi até o fundo de sua própria tristeza, se as traições da vida o enriqueceram ou se você se retraiu e se fechou, com medo de mais dor. Quero saber se você consegue conviver com a dor, a minha a sua, sem tentar escondê-la, disfarçá-la ou remediá-la.

Quero saber se você é capaz de conviver com a alegria, a minha ou a sua, de dançar com total abandono e deixar o êxtase penetrar até a ponta dos seus dedos, sem nos advertir que sejamos cuidadosos, que sejamos realistas, que nos lembremos das limitações da condição humana.

Não me interessa se a história que você me conta é verdadeira. Quero saber se é capaz de desapontar o outro para se manter fiel a si mesmo. Se é capaz de suportar uma acusação de traição e não trair sua própria alma, ou ser infiel e, mesmo assim, ser digno de confiança.

Quero saber se você é capaz de enxergar a beleza no dia-a-dia, ainda que ela não seja bonita, e fazer dela a fonte da sua vida.

Quero saber se você consegue conviver com o fracasso, o seu e o meu, e ainda assim por-se de pé na beira do lago e gritar para o reflexo da lua cheia: “Sim!”

Não me interessa saber onde você mora ou quanto dinheiro tem. Quero saber se, após uma noite de tristeza e desespero, exausto e ferido até os ossos, é capaz de fazer o que precisa ser feito para alimentar seus filhos.

Não me interessa quem você conhece ou como chegou até aqui. Quero saber se vai permanecer no centro do fogo comigo sem recuar.

Não me interessa onde, o que ou com quem estudou. Quero saber o que o sustenta, no seu íntimo, quando tudo mais desmorona.

Quero saber se é capaz de ficar só consigo mesmo e se nos momentos vazios realmente gosta da sua companhia.

 

Oriah Mountain Dreamer

Instruções de utilização: Ler o livro de mesmo nome, “O Convite”, da Editora Sextante

 

O Convite

Garrafa 73 – Ilusão de ótica   1 comment

O ser humano é parte de um todo que chamamos de Universo, uma parte limitada no tempo e no espaço.

Ele vê a si mesmo, seus pensamentos e sentimentos como algo separado do resto, uma espécie de ilusão de ótica da sua consciência.

Essa ilusão de ótica é uma espécie de prisão para nós, restringindo-nos aos nossos desejos e afeições pessoais.

Nossa tarefa é nos libertar dessa prisão, aumentando a amplitude de nossa compaixão, para abarcar todas as criaturas vivas e toda a Natureza em sua beleza.

Albert Einstein
Ilustração de autor desconhecido

Ilusão de ótica

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