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Garrafa 517 – Beijo seu beijo   Leave a comment

No dia anterior, eles tinham passado o final da tarde e o início da noite juntos.

Enquanto durou seu relacionamento amoroso, sempre que se encontravam, era como se não houvesse amanhã e o dia de ontem não tivesse existido também. Com as roupas, meias, sapatos e sandálias espalhados pelo chão ao lado da cama, amavam estar completamente desnudos na companhia um do outro. E aqueles momentos eram preciosos demais para se pensar em outra coisa que não fosse em viver intensamente o momento presente. Olhos nos olhos, ou explorando cada pequena dobra ou as mudanças de textura na pele do corpo um do outro, amavam-se ora com delicadeza, ora de maneira selvagem. E improvisavam a coreografia de uma dança de acasalamento às vezes tranquila, às  vezes frenética. Essa explosão cinestésica quase sempre deixava marcas no pescoço e no peito, e pequenos arranhões nas costas e nas pernas de ambos, além de outros sinais em regiões do corpo menos visíveis. E assim tinha sido naquele dia também.

Quando ele atendeu àquela chamada no seu telefone funcional, no meio da tarde, estava no seu ambiente de trabalho e reconheceu imediatamente aquela voz sempre esperada e bem-vinda do outro lado da linha. Falavam-se quase todos os dias, e às vezes mais de uma vez por dia, de modo que ele não se surpreendeu quando o telefone tocou e logo reconheceu o número de origem da chamada. Ficava sempre feliz quando isso acontecia. Ah! Era muito prazeroso ouvir o próprio nome no som daquela voz.

Muitos anos já tendo se passado depois daquele tempo simplesmente mágico, ele às vezes acordava sobressaltado no meio da noite, depois de parecer ter ouvido aquela voz sussurrando seu nome a partir de algum ponto envolto na penumbra e em um local muito distante… Enquanto as batidas do coração e a respiração ofegante voltavam ao normal, incapaz de pegar no sono outra vez, ele apenas permanecia em silencioso compasso de espera pelas primeiras luzes de um novo dia.

Naquela tarde, ela disse que tinha se lembrado dele, há alguns instantes atrás quando, ao mudar de posição na cadeira de seu escritório, sentiu que tinha ficado com a pele sensível pelo atrito prolongado a que tinha sido submetida aquela região do baixo ventre entre as suas coxas grossas e firmes. Riram juntos demoradamente, por aquela sincera confissão cheia de intima cumplicidade, pois ele também ainda sentia muita sensibilidade na mesma região, ressalvadas as óbvias diferenças de anatomia. Ela costumava manter essa área do corpo cuidadosamente depilada mas, às vezes, quando os minúsculos pelos começavam a crescer novamente, o efeito que ele sentia era o de estar em contato com uma lixa muito fina, enquanto se esfregavam com força, comprimindo mutuamente seus quadris e enroscando suas pernas de maneiras impensáveis, em suas demoradas brincadeiras e jogos amorosos.

Apesar de vivenciarem intensamente cada um daqueles momentos, vendo um ao outro com seus próprios olhos, de dentro de seus corpos, em uma posição associada em primeira pessoa, era comum que também se colocassem no lugar um do outro, em segunda pessoa, com o desejo genuíno de apenas proporcionar prazer ao seu amor, e não apenas de estarem de maneira egoísta à procura da própria satisfação. Grande parte do seu deleite vinha de se saberem desejados e, repeitados em sua individualidade, poderem oferecer prazer um ao outro. Seguiam à risca O Conselho de Kamala:

“Os amantes não devem separar-se, depois da festa do amor, sem que um parceiro sinta admiração pelo outro; sem que ambos sejam tanto vencedores como vencidos, de maneira que em nenhum dos dois possa surgir a sensação de enfado ou de vazio e ainda menos a impressão desagradável de terem-se maltratado mutuamente.”

Ele gostava de pensar que, ao invés de se beijarem, eles beijavam o beijo que recebiam um do outro.

Nos últimos dias, como sempre acontece nesta época do ano, ele relembrou com carinho e bom humor alguns daqueles momentos de pura diversão despretensiosa e, ao mesmo tempo, da mais intensa conexão que pode existir entre duas pessoas que se amam de verdade,  e desejou sinceramente que ela estivesse feliz, em companhia das pessoas que escolheu para compartilhar sua vida, depois que se separaram.

Ela também o tinha feito muito feliz.

E rabiscou no seu bloco de notas, brincando com as palavras com a métrica de um haicai:

quero seu querer,
desejo seu desejo,
beijo seu beijo.

Eduardo Leal
Fotos de autores desconhecidos
Instruções de utilização: ouvir “The rain, the park and other things” com The Cowsills

Garrafa 455 – Beijo doce   Leave a comment

jabuticaba,
o doce do seu beijo
nunca acaba.

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

Garrafa 287 – Em uma manhã de sol   Leave a comment

Em sua obra “Grande Sertão: Veredas”, repleta da sabedoria de homens simples profundamente conectados com seu ambiente natural, já nos dizia João Guimarães Rosa: “Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo.” Ou, na linguagem da moderna neurociência: percebemos o mundo por meio dos nossos sentidos, filtrados pelas nossas crenças e valores atuais e experiências anteriores, num processo de contínuo aprendizado. O mesmo fato, presenciado por duas pessoas diferentes, suscitará diferentes interpretações.

Mas gosto de pensar que possa haver algo mais, além de nossas limitadas e relativas interpretações individuais: O todo! O Absoluto! O Uno!

Enquanto o dia amanhece, refletindo a respeito a partir das minhas próprias percepções, imagino que talvez somente aqueles mestres iluminados, que alcançaram um nível de consciência além da mente, vejam as coisas tais como elas realmente são, com sua vibração unica e, ao mesmo tempo, conectadas de maneira harmônica com todas as outras coisas do Universo. Para os ainda não iluminados, como a maioria de nós, talvez um breve lampejo dessa visão nos seja permitida apenas no silêncio de uma fervorosa oração, em um estado de profunda meditação ou amorosa contemplação. Ou talvez ainda, quem sabe, para duas pessoas verdadeiramente apaixonadas, durante aquele beijo, no encontro de corpos que se entregam naquela doce vertigem ou, simplesmente, naquela troca de olhares… Quem sabe também, em decisão de copa do mundo, minuto final e gol de desempate a favor da nossa seleção… Nesses breves momentos, parece que vemos o mundo como ele realmente é… e ele é perfeito do jeito que está!

Enquanto isso não acontece, nessa linda manhã de sol, ouço o canto de uma cigarra e penso comigo mesmo:

nem todos verão,
no canto da cigarra,
o mesmo verão.

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Estrada do sol” na voz de Nana e Dori Caymmi

Garrafa 274 – A Máquina do Tempo   1 comment

Nos últimos dias, véspera da chegada da primavera de 2011, noticias em sites científicos de todo o mundo dão conta de que pesquisadores europeus encontraram as primeiras evidencias de partículas subatômicas – os neutrinos – viajando mais rápido que a velocidade da luz. Esses resultados, se confirmados, poderiam significar que é possível teoricamente “enviar informações para o passado”. Em outras palavras, a viagem para o passado poderia ser possível…

Imediatamente, começo mentalmente a arrumar minhas malas e a escolher o meu destino. Quantas opções interessantes!

No quintal arborizado da casa da infância, anos sessenta, sentir novamente, quase ao mesmo tempo, o gosto e o contraste dos sabores da manga, da pitanga, da goiaba, do jambo e da amora!

Vivenciar o entusiasmo de fabricar, com inesperado sucesso, um dos meus primeiros artefatos que faziam parte do kit de sobrevivência na infância, junto com cinco bolas de gude coloridas – meu estilingue. Ele era construído com forquilha cuidadosamente selecionada e serrada de um ramo seco e firme de goiabeira, complementado com elástico recortado da câmara de um pneu careca do velho Mercury do meu pai e com o pequeno retângulo de couro macio também recortado de um antigo sapato usado pela minha mãe.

Esse prodígio de engenharia bélica primitiva era municiado e carregado com caroços redondos e firmes de pitangas maduras. Era preciso comer muitas delas para manter os bolsos cheios da munição usada nas disputas com meus amigos da vizinhança. Acho que poderia fazer novamente esse sacrifício…

Quem sabe poderia agora me esquivar do impacto produzido por um desses caroços, que me atingiu o rosto, quando saí do esconderijo por detrás da parede da cozinha e passei a temer a mira precisa do meu amigo Mané!

E impedir o gesto impensado de alvejar aquela rolinha distraída no galho da mangueira… Sua pequena carcaça ainda deve estar sepultada por entre as raízes do jambeiro, após cerimonial fúnebre providenciado imediatamente com profundo arrependimento…

Se meu novo amigo Bem-te-vi soubesse desse passado, ainda cantaria todo dia pra mim?

Depois de consultar cuidadosamente os registros de minha máquina do tempo, finalmente me decido por um destino mais recente… Ah! Aquele beijo… Relâmpagos iluminando o céu da boca…

Tá marcado!
Bagagem pra que?
Naquele momento estava pelado…

Já sentindo de novo aquela vertigem, sigo balbuciando um breve haicai…

desengonçado,
no lombo de um neutrino,
volto ao passado…

Eduardo Leal

Fotos de autores desconhecidos
Instruções de utilização: Ouvir “Time” com Alan Parsons Project

Garrafa 152 – Sushi Bar   Leave a comment

vista do alto
cidade iluminada
beijo de saquê

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

Garrafa 151 – Copacabana 2   Leave a comment

farol da ilha
única testemunha
do primeiro beijo

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

Garrafa 150 – Copacabana   Leave a comment

Copacabana,
cenário de um beijo
que não foi roubado…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

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