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Garrafa 482 – Desapontado (Bem-vinda desilusão)   Leave a comment

Ao contrário do que muita gente pode pensar, apesar da dor, e talvez por causa dela, sofrer uma desilusão pode ser uma das situações mais transformadoras que podem acontecer com uma pessoa, uma equipe ou um país que estejam verdadeiramente interessados no seu autodesenvolvimento.

Pensem nisso: ESTÁVAMOS ILUDIDOS! A CBF e a Comissão Técnica muito mais que a nossa torcida.

Em princípio, não há nenhum problema em perdermos para a Alemanha em uma semifinal de Copa do Mundo. Mas um placar de 7 X 1, com cinco gols sofridos em menos de 30 minutos evidenciou um desnível muito grande entre as duas equipes, o que não era esperado para uma seleção que pretendia o hexacampeonato. É um indicador que não pode ser desprezado e inclui diversas variáveis tangíveis e intangíveis.

E permanecer iludido por um longo período a respeito de si mesmo ou a respeito do ambiente onde estamos inseridos é o pior que pode acontecer com uma pessoa, uma equipe ou um país em sua caminhada de crescimento e desenvolvimento!

A hora da verdade chega, mais cedo ou mais tarde… Seja qual for o indicador utilizado. Mas sempre chega! E quanto mais cedo melhor! E isso, além de gerar uma situação de crise é, também, uma grande oportunidade.

O fato de termos vencido cinco competições no passado nunca foi garantia de nada. Isso é um jogo! Há vários fatores envolvidos: equipes, gramado, arbitragem, torcidas, estado psicológico dos envolvidos, etc… Outras equipes aprenderam conosco e se estruturaram melhor do que nós para enfrentar esse desafio multidisciplinar.

E o fato de termos vários talentos individuais, cobiçados e pagos a peso de ouro por centros esportivos mais bem estruturados, também não nos garante muita coisa, quando se trata de uma competição por seleções, de um esporte coletivo como o futebol, em que é necessário o desenvolvimento de uma verdadeira equipe e não apenas um bando de bons talentos individuais reunidos de maneira apressada.

E, infelizmente, aparentemente não temos técnicos de qualidade e reconhecidos mundialmente, caso contrário também estariam brilhando no exterior como o fazem nossos jogadores.

Teremos que reestruturar praticamente tudo.

E apesar de possuirmos agora vários centros esportivos modernos (infelizmente todos superfaturados à sombra de tenebrosas e escusas transações), não dispomos de uma mínima estrutura à disposição dos diversos clubes e divisões de base, que é onde tudo começa. E isso exige esforço organizado. Mais do que só planejamento de curtíssimo prazo, exige um choque de gestão e de planejamento a médio e longo prazos. Mas choque de gestão como, com a nossa ridícula safra de cartolas, com raras e honrosas exceções, em todos os escalões do esporte?

Infelizmente, a mesma crença ilusória que nos damos conta foi adotada pela nossa seleção (a hora da verdade chegou!) ainda está iludindo a vários de nós individualmente, a várias equipes dos nossos campeonatos estaduais, a várias empresas e organizações e ao nosso próprio país! Estamos iludidos há muito tempo!

Que esse desapontamento e essa desilusão transformadora sirvam para uma oportuna reflexão a respeito do necessário estabelecimento dos nossos mais valiosos e verdadeiros objetivos e metas, em cada área de atividade, e que, a partir disso, sejam estabelecidos planos, estratégias e ações de desenvolvimento, com o apoio de pessoas capacitadas e competentes para essa tarefa, de ficha limpa e idôneas, e demos partida nas ações de desenvolvimento que se estenderão por décadas, até que os primeiros resultados possam aparecer no futuro.

Mãos à obra, então!
Bendita desilusão!

O vento fresco dessa tarde de inverno sopra ao meu ouvido um breve haicai:

desapontado,
percebo novo rumo
nunca apontado…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

Desapontado

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Garrafa 446 – Saltando do ninho   Leave a comment

saltando do ninho,
faço o meu caminho,
eu passarinho…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

Garrafa 371 – Broto novo em folha   Leave a comment

Uma folha novinha em folha surge verdinha, de uma mudinha de pé de graviola, a mais nova da varanda.

novo em folha
o broto se desdobra
faz sua escolha

Eduardo Leal
Foto de Eduardo Leal

Novinho em folha

Garrafa 356 – Pensamento são   1 comment

Há alguns anos atrás, explorando uma ferramenta desenvolvida pelo Instituto Gallup – o Teste de Pontos Fortes – descobri que um dos meus talentos dominantes é a Intelecção. Gosto de pensar. Gosto de atividade mental. E essa atividade mental pode ser focada, direcionada por meus outros talentos dominantes, ou desprovida de foco. Gosto do tempo que passo sozinho porque é meu momento de concentração e introspecção. Em diversos momentos, sou minha melhor companhia, fazendo a mim mesmo diversas perguntas e buscando respostas que façam sentido. Esse rumor mental é uma constante em minha vida.

Uma vez que meu primeiro talento é ser Estudioso, o foco do meu pensamento tem sido direcionado aos processos de aprendizado e envolvimento com várias experiências de participação em cursos de graduação, pós-graduação e outros tipos de cursos livres e de autodesenvolvimento. A Psicologia, o Coaching, a Filosofia, a Poesia e a Espiritualidade têm sido interesses constantes e é aí que mora o problema. Minha curiosidade filosófica me levou a conhecer mais a respeito da filosofia budista, mais especialmente sobre o Zen-budismo. Hoje considero que minha prática espiritual se resume à meditação sentado (zazen), sem nenhum “verniz religioso” budista, caminho que escolhi para elevar o meu nível de consciência.

E por que isso poderia se tornar um problema? Acontece que todos escritos Zen apontam para a necessidade de se silenciar a mente e o pensamento, para o desenvolvimento de uma não-mente. Desde Buda, na Índia (atual Nepal) do século IV AC, as escolas Ninaiana e Maaiana na Índia, os “patriarcas” na China, a partir de Bodhidarma, entre os séculos I e VI DC, e com a chegada do Zen ao Japão a partir do século VI, as escolas Shingon e Tendai no século XI DC, o Budismo de Kamakura entre os séculos XII e XIII DC, as escolas Zen-Budistas Soto (Dogen) e Rinzai (Eisai), chegando aos mestres e estudiosos orientais (Suzuki) e ocidentais todos batem na mesma tecla: silenciar a mente e o pensamento. Sacaram?

Nas ultimas semanas, li novamente o ótimo livro de Charlotte Joko Beck “Sempre Zen” – sobre como introduzir a prática do Zen no seu dia a dia – e iniciei a leitura de “Zen no Trabalho” – sobre a experiência empresarial de um mestre Zen – de Les Kaye. Isso é claro, disparou uma série de consultas a outras obras que constam da minha pequena biblioteca tais como “A Lua numa Gota de Orvalho” – com os escritos do Mestre Dogen – organizado por Kazuaki Tanahashi, “Textos Budistas e Zen-Budistas” organizado por Ricardo M. Gonçalves, “A Tigela e o Bastão” – com 120 contos Zen – narrados pelo mestre Taisen Deshimaru, “A Doutrina Zen da Não-Mente” e “Manual of Zen Buddhism” de D. T. Suzuki e “How to Practice Zazen” do Institute for Zen Studies.

Transcrevo abaixo algumas citações que ficam dando voltas na minha mente:

Há um Real, um Absoluto inacessível ao pensamento e à linguagem que está em todas as coisas e também dentro delas. O Tathata (aquilo que é assim mesmo) ou Sunyata (Vazio). No Budismo é expresso dialeticamente como o contínuo vir-a-ser, a perpétua transformação de todas as coisas. (Verdades metafísicas apresentadas pelo Budismo e pelo Hinduísmo)

– A mente é senhora dos cinco sentidos. Por isso deveis disciplinar vossa mente. A mente é mais perigosa que uma cobra venenosa, uma fera ou um salteador. É como uma pessoa que, entretida com o mel que transporta em suas mãos, não enxerga um buraco e cai nele. Se deixardes vossa mente entregue a si mesma, perdereis as boas coisas. Se a vigiardes, tudo correrá bem. Por isso, ó monges, deveis vos esforçar e dominar vossa mente. (Butsuyuikyô-gyô – O último sermão de Buda)

– Ó monges, todo aquele que tem uma intenção firme, conserva sua mente em estado de concentração. Por isso, ele sabe os Darmas do nascimento e da dissolução do mundo. Por isso, deveis vos esforçar e praticar as diversas concentrações. Aquele que consegue praticar a concentração não tem uma mente dispersiva. É como aquele que economiza água e a guarda com cuidado. O praticante exercita-se na concentração, a fim de bem guardar a água da Sabedoria. (Butsuyuikyô-gyô – O último sermão de Buda)

– Por isso, ó Sariputra, sendo todas as coisas vazias de substância própria, não há fenômenos materiais, não há sensações, não há ideias, não há vontade e não há consciência. Não há olhos, não há ouvidos, não há nariz, não há língua, não há corpo, não há mente, não há forma, não há ruído, não há cheiro, não há gosto, não há coisa palpável nem coisa perceptível através da mente. Nada há, desde a esfera de influência da vista até a esfera de influência da mente.

– … nós seres humanos, não somos como os cães. Temos mentes centradas em si mesmas que nos remetem a muitos problemas. Se não entendermos o equivoco da nossa forma de pensar, nossa autopercepção, que é nossa maior benção, torna-se também nossa perdição. (Iniciando a prática Zen – em “Sempre Zen”)

– A iluminação não é algo que se atinge. É a ausência de alguma coisa. A vida inteira, a pessoa vai atrás de algo, perseguindo suas metas. A iluminação está em deixar tudo isso de lado. (Iniciando a prática Zen – em “Sempre Zen”)

– Nossa prática é, de momento a momento, como uma escolha, uma encruzilhada no caminho: podemos ir por aqui ou por ali. É sempre uma escolha, a cada momento, entre o belo mundo que desejamos criar em nossas mentes, e aquilo que de fato existe. (Iniciando a prática Zen – em “Sempre Zen”)

Enfrentar a tensão provocada pela oposição entre minha tendência a viver no mundo mental e minha prática espiritual que me leva a buscar silenciar a mente e o pensamento, tem sido um desafio quase insuportável. Ainda mais quando tenho que conciliar tudo isso com o meu próprio Autocoaching, revendo meu Plano de Vida para 2013, e a realização de diversas sessões de Coaching Centrado em Valores em que meu papel é o de orientar meus Exploradores de Novas Possibilidades de Futuro a direcionar seus desejos e seus egos, no sentido de estabelecimento de seus próprios objetivos e metas, estratégias e indicadores de desempenho.

Aliás, Pensamento Estratégico é outro de meus talentos dominantes e tem me capacitado a abrir caminho em meio à desordem e encontrar a melhor rota. Às vezes consigo perceber padrões, onde outros veem simplesmente complexidade. Vivo às voltas com o estabelecimento de cenários alternativos e me perguntando: “E se isso acontecesse?” É com base nesse tipo de pensamento que estabeleço minhas estratégias e assessoro meus clientes de consultoria.

Enfim, vivo no fio da navalha. Pensar ou não pensar é a questão! E às vezes me questiono: Será que, ao contrário do que dizem os Zen-budistas, não passa pela minha cabeça pelo menos um pensamento são?

Hoje cedo, na pracinha em que me encontrava pensativo, ao mesmo tempo em que o ruído produzido pelos fiéis que saíam de uma igreja evangélica quebrou o silêncio da manhã, um sopro de vento me sussurrou ao ouvido:

do jeito que são,
confiar que as coisas
são o que são…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Cosmic mind affair” com Acqua Fragile

Zazen

Garrafa 212 – Celebração de Aniversário   Leave a comment

Tão importante quanto celebrar o dia em que você nasceu,
é celebrar o dia em que você descobre…
porque nasceu.

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Celebração da florescência das cerejeiras em Nara – Japão

Garrafa 202 – Servir   2 comments

ser
servir
vir a ser

Alberto Centurião
Foto de autor desconhecido

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