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Garrafa 342 – Militante da vida   2 comments

Acordei hoje com o firme propósito de, após minha caminhada diária, visitar um jovem cliente que sofreu um acidente de moto e, depois de duas cirurgias, já se recupera em casa, recebendo o carinho e atenção de sua família e amigos mais próximos, entre os quais alegremente também me incluo.

Como sempre faço nessas ocasiões, andei às voltas pensando no que levar, no que dizer, no que fazer para animá-lo, abalado que se encontra diante da expectativa de ter que passar ainda várias semanas em processo de recuperação, com fisioterapia, restrições de movimentos, etc.

Nada de caixas de bombons, frutas e revistas para passar o tempo. Sua mãe e namorada certamente já providenciaram tudo isso. Nesses momentos desafiadores é a mente que precisa de alimento saudável e, após breve consulta aos livros ao alcance da mão, na minha estante de pronto uso, achei o que procurava. A escolha foi facilitada, também, pela lembrança das ferramentas que utilizei para me recuperar de uma fratura na mão esquerda, após um treino de Karate há muitos anos atrás, e de uma fissura de costela, mais recentemente. É a mesma dica que tenho passado para familiares, amigos e clientes que enfrentam o desafio de recuperação após acidentes, situações traumáticas e doenças. E sempre funciona, desde que as pessoas se permitam acessar um estado de recursos que está sempre à nossa disposição, no nosso organismo. Os que acreditam nisso e usam essa técnica, entre os quais me incluo, reportam ótimos resultados na diminuição do tempo de recuperação e de convalescença.

No livro “O Zen nas Artes Marciais”, de Joe Hyams, há um tópico em que ele descreve um exercício simples de visualização, que acessa a capacidade de auto cura disponível no nosso próprio corpo, que nada fica a dever a outras referências que encontro em livros e apostilas de Programação Neurolinguística – PNL. Trata-se de visualizar, com riqueza de detalhes, um grupo de operários encarregados de realizar a tarefa de limpar e recuperar a área, o osso, o órgão, o músculo, ou o nervo danificado, restaurando sua funcionalidade. Eles fazem hora extra, no nosso inconsciente, enquanto dormimos, e seu trabalho é tão mais eficaz e eficiente, quanto mais detalhadamente programamos nosso cérebro para permitir que eles cumpram suas tarefas, antes de pegarmos no sono. O apito dando inicio às atividades no “canteiro de obras”, seus capacetes e uniformes, com cores diferentes em função das suas tarefas específicas, camisetas com dizeres e palavras de ordem, sacolas de ferramentas e cintos de utilidades com toda a parafernália e instrumental de cura. Cada tipo de ação deve ser visualizada… limpeza de área, revascularização, lubrificação de dobradiças e articulações, soldagem, colagem, reconexão, etc… Ao despertarmos, soa o apito de fim de turno, essa turma de operários vai descansar, e entra em ação outra equipe…

Já que ele, como eu, também se interessa por artes marciais, essa foi a dica que passei para meu jovem amigo, que assumiu o compromisso de experimentá-la diariamente, em várias ocasiões, especialmente à noite antes de dormir. Além da ótima equipe de especialistas que estão à sua disposição, no seu plano de saúde, ele agora pode, também, participar mais diretamente do processo de reabilitação usando o que a natureza nos oferece de melhor – nossa capacidade de auto cura. Não se trata de simplesmente alimentar esperança de que o melhor aconteça mas, isto sim, de agir e seguir com confiança na direção escolhida. Ação consciente apoiada por crenças potencializadoras e exercício de visualização! Simples assim.

No caminho de volta pra casa, sabia que tinha visto algo pela manhã, que estava relacionado a esses pensamentos sobre a importância da ação consciente decorrente da vontade de agir, mas não conseguia lembrar exatamente o que era. Que outro livro tinha passado pelas minhas mãos antes de sair, deixando aquela sensação de “preciso olhar isso mais uma vez”? Decidi consultar minha estante de pronto uso imediatamente ao chegar em casa, e lá estava a mensagem que tinha ficado no subconsciente: em um papel dobrado, um breve haicai elaborado em agosto de 2011, após a leitura de “A felicidade, desesperadamente” de André Comte-Sponville, aguardando revisão e ainda não postado.

O trecho do livro inspirador diz assim:

“… eu nunca disse que é necessário se conformar ao real, se você entende por isso que deveríamos renunciar a transformá-lo!… Creio ter insistido no fato de que o que faz agir não é a esperança, mas a vontade… Os militantes têm uma palavra encantadora para designar essas pessoas, essas pessoas que têm a mesma esperança que eles mas que não agem, porque não têm a mesma vontade que eles. Chamam-nas de simpatizantes. O que é um simpatizante? É alguém que espera a vitória, como você, isso não custa nada, mas que renuncia a fazer o que depende de si para se aproximar dela. Ao passo que um militante é quem age. Não é a esperança que os diferencia (todos esperam a vitória, a justiça, a paz, a liberdade), mas a vontade, mas a ação. As pessoas que fazem que as coisas mudem não são as que esperam, mas as que lutam.”

Para ser congruente com outros posts e crenças que tenho compartilhado e procurado adotar, acho que cabe um oportuno esclarecimento a respeito da citação “As pessoas que fazem que as coisas mudem não são as que esperam, mas as que lutam.”:

Como disse Jung: “Aquilo a que se resiste, persiste!” Não luto mais contra coisa alguma. Prefiro agir em favor do que considero importante. Aquilo a que opomos resistência ganha força! Opor resistência com violência, então, é o fim. Comunicação compassiva me parece uma estratégia mais inteligente (Escuta com empatia/Perguntas Poderosas/Feedback Positivo e Feedback Construtivo) quando seguida de ação firme na direção que se deseja seguir.

Se nessa ação firme na direção do que consideramos valioso e importante, alguém nos agredir, aí é outra história. Comunicação compassiva não significa abdicar da própria autodefesa, quando necessário. Mas partir pra agressão gratuita ao nosso patrimônio comum e às pessoas, estilo Black Block, me parece demonstração de baixíssimo nível de consciência.

Encerro esse comentário com uma citação atribuída a Trulshik Rimpoche: “A forma como as pessoas nos tratam é o carma delas. A forma como reagimos, é o nosso.”

Tendo tomado, já há algum tempo, a decisão de me tornar um militante da minha própria vida, agindo de maneira consciente e amorosa, e deixando de ser apenas um simpatizante, acho que o haicai pode ser postado da maneira como foi parido, registrando a percepção do meu estado de espírito naquela ocasião, após a leitura do livro inspirador. Entretanto, essa prosa pode ser, para alguns visitantes do Blog, um pouco mais esclarecedora.

alegremente…
mais que simpatizante,
Ser militante!

Eduardo Leal
Inspirado no livro “A felicidade, desesperadamente” de André Comte-Sponville
Ilustração de autor desconhecido

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Garrafa 193 – O Conselho de Kamala   4 comments

O tema do sexo é sempre assunto palpitante e um dos tópicos mais pesquisados nas ferramentas de busca na Internet. A partir da curiosidade infantil, passando pelos sobressaltos da adolescência e chegando à idade adulta, é tema de conversas, livros, pinturas, esculturas, filmes e, é claro, de muita ação cinestésica.

Compartilho neste post algumas informações e reflexões a esse respeito, porque durante os processos de Coaching Centrado em Valores e de Consultoria em Gestão Pessoal que tenho conduzido ao longo dos últimos anos o assunto sempre vem à tona. Isso acontece, principalmente, quando os Exploradores de Novas Possibilidades de Futuro analisam suas respectivas Áreas da Vida denominadas “SAÚDE” (Física / Emocional / Mental), “RELACIONAMENTOS” (Família / Trabalho / Pessoal) e, às vezes, “LAZER”.

Objeto de repressão severa em diversas culturas e épocas, em função de crenças religiosas ou de simples preconceito, a partir dos anos 1960 houve uma explosão de liberação da expressão sexual em várias partes do mundo, com a popularização das pílulas anticoncepcionais. Podemos observar, ao mesmo tempo, que essa liberação sexual nem sempre foi acompanhada da desejável e correspondente elevação do nível de consciência que poderia ser esperada das pessoas supostamente liberadas.

No mundo ocidental o sexo foi tema de interesse constante: cercado de hipocrisia e de repressão religiosa na Idade Média, passando pelo Renascimento e chegando aos trancos e barrancos à Idade Moderna como assunto de interesse científico. Esse interesse ganhou relevância com as pesquisas e trabalhos conduzidos no Século XX por Sigmund Freud, que buscou disseminar a ideia de que o desejo sexual é a energia motivacional primária da vida humana. Em sua obra, Freud fez surgir uma nova compreensão do ser humano: a de uma pessoa influenciada por seus desejos e sentimentos que criam em sua mente um tormento pela contradição entre esses impulsos e a vida em sociedade.

Já na tradição oriental, desde a mais remota antiguidade, sua importância também não foi desprezada. No Tantra Yoga, por exemplo, o sexo entra como parte fundamental no estabelecimento das raízes de uma família e parte importante da vida de um casal saudável. Por isso no Tantra o sexo também é ensinado como um ato sagrado, como uma forma de trazer prazer e alegria ao seu companheiro ou companheira e como a oportunidade do encontro entre o “deus masculino” e a “deusa feminina” que vive em cada um dos parceiros. O sexo, de acordo com essa concepção, é visto antes de tudo como uma prática de elevação espiritual. E no Tantra podemos encontrar também a prática do Maithuna, que é uma técnica que procura alcançar o domínio dos apetites sexuais.

Maithuna ou Mithuna é um termo sânscrito que, na maioria das vezes, é traduzido como a união sexual em um contexto ritualista. Apesar de alguns escritores, seitas e escolas como, por exemplo, a de Yogananda considerarem que este é um ato puramente mental e simbólico, outros entendem que a palavra Maithuna se refere claramente a casais (com integrantes do sexo masculino e feminino) realizando sua união no sentido físico e sexual. E essa união seria equivalente à oportunidade de realização de uma espécie de “limpeza madura” do casal apenas quando a união é consagrada pelo ato do casamento, ou pelo amor verdadeiro.

Confesso que tenho simpatia por essa concepção que reconhece “efeitos terapêuticos” e de “limpeza” por conta dessa ligação física, emocional e espiritual e de um certo esquecimento momentâneo dos próprios egos.

No entanto, segundo outras concepções, seria possível experimentar uma forma de Maithuna sem união física. O ato poderia existir em um plano metafísico, sem penetração sexual, através apenas da transferência de energia através dos seus corpos sutis. E é quando esta transferência de energia ocorre que o casal, encarnado como duas divindades e com a sublimação momentânea dos seus respectivos egos, confrontam a realidade última e experiências de bem-aventurança através da união dos seus corpos sutis.

Descobri também recentemente, em um Curso de Cabala de que estou participando, que esse encontro físico e sexual também é visto pelos Cabalistas com um dos momentos com maior capacidade de se gerar LUZ, desde que essa união seja tratada com o cuidado que o assunto merece, com ênfase nas preliminares, como uma oportunidade de doação e de compartilhamento, mais do que de simples recebimento, como um encontro sagrado e não apenas como uma ocasião para obtenção de gratificação instantânea e prazer automático.

Quando tenho que lidar com essas questões por minha própria conta, o faço acreditando firmemente que o sexo é o momento de maior intimidade possível entre duas pessoas, com troca de fluidos corporais, compartilhamento de emoções e, finalmente, com um encontro iluminado de duas almas que se buscam. E, portanto, entendo que o sexo deve ser precedido de cuidadosa avaliação e seleção, sem preconceitos desnecessários, mas ao mesmo tempo considerado com o devido respeito e atenção que um assunto dessa natureza, de máxima intimidade com alguém, deve ser tratado. Penso que o assunto é suficientemente importante para que se evite que simples tabus sem sentido como “virgindade” e “proibição de sexo antes do casamento” influenciem nas escolhas feitas com consciência e naturalidade por pessoas responsáveis.

Essa foi a ideia que procurei compartilhar com meus três filhos, especialmente com minhas duas filhas, quando lhes dei o meu voto de confiança dizendo que estava certo de que saberiam escolher muito bem quando e com quem fazer sua iniciação sexual.

Para ilustrar a delicadeza com que penso que o assunto deva ser tratado e vivenciado, escolhi para este post a imagem de “um casal” formado por dois bonecos infláveis em uma cama de pregos… Em que qualquer movimento em falso, ou estabanado, pode ser desastroso para ambos os participantes da festa do amor…

E sobre “o que”, que tipo de prática pode ser considerada saudável “dentro das quatro linhas” imaginárias que podem ser delimitadas pelo colchão em uma cama, a relva macia do campo, ou qualquer outro lugar onde o amor e o desejo entre um homem e uma mulher se façam presentes, fico com o conselho da jovem cortesã Kamala oferecido a Sidarta, ambos personagens do belo romance ou “poema indiano” “Sidarta” de Hermann Hesse, que li na juventude e que até hoje me inspira:

Os amantes não devem separar-se, depois da festa do amor,
sem que um parceiro sinta admiração pelo outro;
sem que ambos sejam tanto vencedores como vencidos,
de maneira que em nenhum dos dois possa surgir a sensação de enfado ou de vazio
e ainda menos a impressão desagradável de terem-se maltratado mutuamente.

Eduardo Leal
Ilustração de autor desconhecido

Garrafa 117 – Maturidade   Leave a comment

O homem torna-se maduro no momento em que começa a amar em vez de precisar. Ele começa a transbordar, a compartilhar; começa a dar. A ênfase é completamente diferente. Com o imaturo, a ênfase está em como conseguir mais. Com o maduro, a ênfase está em como dar, como dar mais, e como dar incondicionalmente. Isso é crescimento, maturidade, chegando para você.

Uma pessoa madura dá. Só uma pessoa madura pode dar, porque só uma pessoa madura tem. Então o amor não é dependente. Então você pode estar amando quer o outro esteja aí ou não. Então o amor não é um relacionamento, ele é um estado.

O que acontece quando uma flor desabrocha numa floresta sem ninguém para apreciá-la, ninguém para sentir a sua fragrância, ninguém para passar e dizer: “linda”; ninguém para saborear a sua beleza, seu êxtase, ninguém para compartilhar – o que acontece com a flor?

Ela morre?
Ela sofre?
Fica aterrorizada?
Comete suicídio?

Ela continua desabrochando. Não faz diferença alguma se alguém passa por ela ou não; é irrelevante. Ela continua espalhando sua fragrância aos ventos. Continua oferecendo sua alegria a Deus, ao Todo.

Osho
Em “Relacionamento, Amor e Liberdade”

flor branca

Garrafa 92 – Aceitação e Entrega   Leave a comment

Quando nos rendemos àquilo que é e assim ficamos inteiramente presentes, o passado deixa de ter qualquer força.
A região do Ser, que tinha sido encoberta pela mente, se abre.
De repente surge uma grande serenidade dentro de você, uma imensa sensação de paz.
E dentro dessa paz existe uma grande alegria.
E dentro dessa alegria existe amor.
E lá no fundo está o sagrado, o incomensurável, o que não pode ser nomeado.

Eckhart Tolle
Ilustração de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “A Paz” com João Bosco

Garrafa 84 – O Convite   Leave a comment

Não me interessa saber como você ganha a vida. Quero saber o que mais deseja e se ousa sonhar em satisfazer os anseios do seu coração.

Não me interessa saber a sua idade. Quero saber se você correria o risco de parecer tolo por amor, pelo seu sonho, pela aventura de estar vivo.

Não me interessa saber que planetas estão em quadratura com sua lua. O que eu quero saber é se você já foi até o fundo de sua própria tristeza, se as traições da vida o enriqueceram ou se você se retraiu e se fechou, com medo de mais dor. Quero saber se você consegue conviver com a dor, a minha a sua, sem tentar escondê-la, disfarçá-la ou remediá-la.

Quero saber se você é capaz de conviver com a alegria, a minha ou a sua, de dançar com total abandono e deixar o êxtase penetrar até a ponta dos seus dedos, sem nos advertir que sejamos cuidadosos, que sejamos realistas, que nos lembremos das limitações da condição humana.

Não me interessa se a história que você me conta é verdadeira. Quero saber se é capaz de desapontar o outro para se manter fiel a si mesmo. Se é capaz de suportar uma acusação de traição e não trair sua própria alma, ou ser infiel e, mesmo assim, ser digno de confiança.

Quero saber se você é capaz de enxergar a beleza no dia-a-dia, ainda que ela não seja bonita, e fazer dela a fonte da sua vida.

Quero saber se você consegue conviver com o fracasso, o seu e o meu, e ainda assim por-se de pé na beira do lago e gritar para o reflexo da lua cheia: “Sim!”

Não me interessa saber onde você mora ou quanto dinheiro tem. Quero saber se, após uma noite de tristeza e desespero, exausto e ferido até os ossos, é capaz de fazer o que precisa ser feito para alimentar seus filhos.

Não me interessa quem você conhece ou como chegou até aqui. Quero saber se vai permanecer no centro do fogo comigo sem recuar.

Não me interessa onde, o que ou com quem estudou. Quero saber o que o sustenta, no seu íntimo, quando tudo mais desmorona.

Quero saber se é capaz de ficar só consigo mesmo e se nos momentos vazios realmente gosta da sua companhia.

 

Oriah Mountain Dreamer

Instruções de utilização: Ler o livro de mesmo nome, “O Convite”, da Editora Sextante

 

O Convite

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