Arquivo para 21/04/2017

Garrafa 517 – Beijo seu beijo   Leave a comment

No dia anterior, eles tinham passado o final da tarde e o início da noite juntos.

Enquanto durou seu relacionamento amoroso, sempre que se encontravam, era como se não houvesse amanhã e o dia de ontem não tivesse existido também. Com as roupas, meias, sapatos e sandálias espalhados pelo chão ao lado da cama, amavam estar completamente desnudos na companhia um do outro. E aqueles momentos eram preciosos demais para se pensar em outra coisa que não fosse em viver intensamente o momento presente. Olhos nos olhos, ou explorando cada pequena dobra ou as mudanças de textura na pele do corpo um do outro, amavam-se ora com delicadeza, ora de maneira selvagem. E improvisavam a coreografia de uma dança de acasalamento às vezes tranquila, às  vezes frenética. Essa explosão cinestésica quase sempre deixava marcas no pescoço e no peito, e pequenos arranhões nas costas e nas pernas de ambos, além de outros sinais em regiões do corpo menos visíveis. E assim tinha sido naquele dia também.

Quando ele atendeu àquela chamada no seu telefone funcional, no meio da tarde, estava no seu ambiente de trabalho e reconheceu imediatamente aquela voz sempre esperada e bem-vinda do outro lado da linha. Falavam-se quase todos os dias, e às vezes mais de uma vez por dia, de modo que ele não se surpreendeu quando o telefone tocou e logo reconheceu o número de origem da chamada. Ficava sempre feliz quando isso acontecia. Ah! Era muito prazeroso ouvir o próprio nome no som daquela voz.

Muitos anos já tendo se passado depois daquele tempo simplesmente mágico, ele às vezes acordava sobressaltado no meio da noite, depois de parecer ter ouvido aquela voz sussurrando seu nome a partir de algum ponto envolto na penumbra e em um local muito distante… Enquanto as batidas do coração e a respiração ofegante voltavam ao normal, incapaz de pegar no sono outra vez, ele apenas permanecia em silencioso compasso de espera pelas primeiras luzes de um novo dia.

Naquela tarde, ela disse que tinha se lembrado dele, há alguns instantes atrás quando, ao mudar de posição na cadeira em seu escritório, sentiu que tinha ficado com a pele sensível pelo atrito prolongado a que tinha sido submetida aquela região do baixo ventre entre as suas coxas grossas e firmes. Riram juntos, demoradamente, por aquela sincera confissão cheia de intima cumplicidade, pois ele também ainda sentia muita sensibilidade na mesma região, ressalvadas as óbvias diferenças de anatomia. Ela costumava manter essa área do corpo cuidadosamente depilada mas, às vezes, quando os minúsculos pelos começavam a crescer novamente, o efeito que ele sentia era o de estar em contato com uma lixa muito fina, enquanto se esfregavam com força, comprimindo mutuamente seus quadris e enroscando suas pernas de maneiras impensáveis, em suas demoradas brincadeiras e jogos amorosos.

Apesar de vivenciarem intensamente cada um daqueles momentos, vendo um ao outro com seus próprios olhos, de dentro de seus corpos, em uma posição associada em primeira pessoa, era comum que também se colocassem no lugar um do outro, em segunda pessoa, com o desejo genuíno de apenas proporcionar prazer ao seu amor, e não apenas de estarem de maneira egoísta à procura da própria satisfação. Grande parte do seu deleite vinha de se saberem desejados e, repeitados em sua individualidade, poderem oferecer prazer um ao outro. Seguiam à risca O Conselho de Kamala:

“Os amantes não devem separar-se, depois da festa do amor, sem que um parceiro sinta admiração pelo outro; sem que ambos sejam tanto vencedores como vencidos, de maneira que em nenhum dos dois possa surgir a sensação de enfado ou de vazio e ainda menos a impressão desagradável de terem-se maltratado mutuamente.”

Ele gostava de pensar que, ao invés de se beijarem, eles beijavam o beijo que recebiam um do outro.

Nos últimos dias, como sempre acontece nesta época do ano, ele relembrou com carinho e bom humor alguns daqueles momentos de pura diversão despretensiosa e, ao mesmo tempo, da mais intensa conexão que pode existir entre duas pessoas que se amam de verdade,  e desejou sinceramente que ela estivesse feliz, em companhia das pessoas que escolheu para compartilhar sua vida, depois que se separaram.

Ela também o tinha feito muito feliz.

E rabiscou no seu bloco de notas, brincando com as palavras com a métrica de um haicai:

quero seu querer,
desejo seu desejo,
beijo seu beijo.

Eduardo Leal
Fotos de autores desconhecidos
Instruções de utilização: ouvir “The rain, the park and other things” com The Cowsills

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