Garrafa 461 – O Conceito de Reenquadramento   3 comments

No exercício de minhas atividades como Coach e Consultor faço uso de uma pequena “caixa de ferramentas” ou, como também costumo dizer, de um “cinto de utilidades” com diversos recursos de que posso lançar mão a cada instante, dependendo da situação que me é apresentada. Uso cada um desses recursos com o propósito de provocar reflexão nas pessoas que me procuram em busca de apoio para seus projetos organizacionais ou pessoais.

Compartilho uma dessas ferramentas – o Reenquadramento – com os amigos que participam de alguns dos meus círculos de relacionamentos, por acreditar firmemente em sua utilidade, incentivando a sua prática e uso no dia-a-dia de cada um.

Como toda ferramenta ou recurso colocado à nossa disposição, é claro que o seu emprego dependerá da nossa intenção e propósito. Da mesma maneira que o nosso conhecimento a respeito da estrutura atômica pode ser utilizado de maneira construtiva, quer seja para produzir energia, quer seja para salvar ou prolongar a vida na área da medicina, ele pode também ser utilizado de maneira destrutiva para produzir e empregar armamento de destruição em massa.

Entendo que o uso construtivo do reenquadramento é no sentido de expandir a nossa capacidade de percepção, utilizando molduras espaciais e temporais cada vez mais amplas, e de contribuir para elevar o nosso nível de consciência, em nossa permanente jornada de busca da verdade. Seu uso de maneira destrutiva, ao contrário, pode ser pelo emprego sistemático de uma perspectiva mais restrita, manipuladora e parcial, com o propósito de distorção e encobrimento de fatos relevantes para entendimento de um determinado problema ou situação. Não podemos perder de vista, entretanto, que o uso de uma perspectiva mais restrita, às vezes pode ser extremamente útil, e até desejável para que se possa aprofundar o conhecimento de um determinado aspecto de uma questão. Isto, desde que, em seguida, voltemos a expandir a nossa moldura espacial e temporal, em uma perspectiva mais ampla, para incluir outros aspectos não considerados anteriormente e igualmente importantes para o entendimento da situação.

Não pretendo me estender em discussões filosóficas a respeito do conceito de verdade. Para efeito de utilização neste breve artigo proponho apenas que se empregue a ideia de se estar de acordo com os fatos. Nesse sentido, qualquer tentativa de se omitir ou distorcer fatos não contribui para o nosso esforço de busca da verdade.

Com a utilização sistemática dessa ferramenta, penso que poderemos então, todos em conjunto, buscar e encontrar novos significados e alternativas criativas para a solução de antigos problemas comuns.

Reenquadramento (Ressignificação)

Conceituação

O Reenquadramento é uma ferramenta que podemos utilizar para contornar as restrições e limites impostos à nossa percepção (por outras pessoas ou por nós mesmos) a respeito de uma determinada imagem, situação ou experiência. Literalmente significa colocar essa experiência sob uma nova e diferente moldura ou contexto cognitivo, fazendo com que seja possível perceber novos significados e dirigir nossa atenção a outros aspectos ainda não considerados, ampliando nosso mapa de mundo. Alguns autores, focalizando mais no seu efeito do que no processo, a chamam de Ressignificação.

Meu Mentor a respeito desse assunto tem sido Robert Dilts, que propõe e discute maneiras saudáveis de utilização dessa ferramenta em diversas publicações e artigos. De “From Coach to Awakener” , no meu entendimento um dos melhores livros já escritos sobre a abordagem de Coaching com Programação Neurolingüística, aproveito abaixo alguns comentários e exemplos.

Dilts nos lembra de que nossas experiências e interpretações a respeito do que nos acontece são influenciadas pela nossa própria perspectiva e contexto. Por exemplo, o fato de que começou a chover no presente instante, pode ser uma benção para alguém submetido a uma seca prolongada, uma ótima desculpa para quem está procurando uma justificativa para ficar em casa, ao invés de comparecer ao churrasco de confraternização da empresa, um mero inconveniente para quem planeja fazer compras no shopping, e uma catástrofe para quem programou realizar uma cerimonia de casamento ao ar livre. Às vezes ficamos presos a apenas um dos aspectos da situação e é importante tomarmos consciência de que há sempre muitas maneiras de apreciarmos a paisagem ao nosso redor e o que nos acontece.

Como um fotógrafo ou um pintor que deseja retratar uma determinada cena, podemos escolher fazer a nossa composição incluindo apenas um detalhe, como uma árvore, ou mesmo um único inseto pousado no seu tronco. E podemos, também, escolher incluir o bosque, com suas muitas arvores e animais, o riacho e o lago, ou ainda, incluir as montanhas e o céu, azul ou carregado de nuvens cinzentas e ameaçadoras, no horizonte mais distante.

O ato de se escolher um novo enquadramento e de colocar uma nova moldura ao redor de uma determinada imagem é uma ótima metáfora desse processo e dessa ferramenta. E não devemos deixar de considerar que as novas perspectivas podem ser de natureza espacial ou temporal e, também, no sentido de estreitar o foco ou de ampliar a visão da situação em questão.

Visualização Gráfica

Utilizando alguns recortes feitos em ilustração de Carlos Fernando Souza Leal e a discussão proposta por Robert Dilts, poderemos refletir em seguida a respeito do efeito da utilização de diferentes molduras de enquadramento:

1. Considerando por um momento a figura apresentada abaixo na Moldura 1, com um enquadramento mais restrito, podemos constatar que ela não possui nenhum outro grande significado, a não ser de que se trata da ilustração de algum tipo de peixe de cor esverdeada nadando de maneira despreocupada em seu ambiente natural.

Moldura 1 Mod

2. Quando o enquadramento é ampliado na Moldura 2, de repente nos damos conta de uma situação diferente. O peixinho verde agora não é apenas um peixe, mas um peixe pequeno prestes a ser devorado por um peixe maior. O peixinho verde parece distraído e sem consciência de sua situação, que nós podemos perceber facilmente apenas pelo fato de selecionarmos uma perspectiva mais ampla. Podemos experimentar um sentimento de alerta e de preocupação pelo peixe pequeno, ou apenas aceitar que o peixe maior precisa se alimentar para sobreviver.

Moldura 2 Mod

3. Quando ampliamos ainda mais o enquadramento, temos uma nova perspectiva da situação e podemos lhe atribuir novos significados. Vemos que não é só o peixinho verde que está em perigo. O peixe vermelho também está prestes a ser devorado por um peixe verde e amarelo ainda maior. Em sua preocupação com a sobrevivência, o peixe vermelho ficou tão focado em comer o peixe verde, que não se deu conta de que sua própria sobrevivência estava ameaçada por um peixe ainda maior.

Moldura 3 Mod

A situação retratada pela Moldura 3, e o novo nível de consciência que emerge do reenquadramento de nossa perspectiva da situação funcionam como uma ótima metáfora do processo de reenquadramento e do seu efeito. As pessoas frequentemente se colocam na situação do peixe verde ou do peixe vermelho. Desatentas, permanecem alheias aos desafios impostos pelo seu ambiente, como o peixe menor, ou tão focadas em obter algum resultado, como o peixe do meio, que não chegam a perceber a crise que se aproxima. O paradoxo da situação do peixe vermelho é que ele focou sua atenção em apenas um determinado comportamento relacionado à sua sobrevivência, e essa decisão colocou a sua própria sobrevivência em risco, de outra maneira. O uso do reenquadramento, portanto, nos permite observar o ambiente mais amplo, de modo que escolhas mais apropriadas e novas ações podem ser planejadas e implementadas.

Desejo firmemente que essas informações possam ser de utilidade para os eventuais leitores desse post, especialmente aqueles que pretendem se aventurar na utilização dessa simples e poderosa ferramenta em seus processos de reflexão.

Eduardo Leal
Ilustrações de Carlos Fernando Souza Leal
Adaptação a partir de tradução livre de trechos de “From Coach to Awakener” de Robert Dilts

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3 Respostas para “Garrafa 461 – O Conceito de Reenquadramento

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  1. Olá Eduardo!

    Muito bom artigo. Esse reenquadramento reflete a dinâmica da vida, pois temos a tendência de ficarmos na zona de conforto.
    Lembrou-me um texto muito interessante sobre uma fazenda onde não havia solidariedade.
    Vou te enviar para vc apreciar.

    Forte abraço meu amigo.
    Claudio

    Curtir

    chdecarvalho
  2. Pingback: Garrafa 490 – Um país à beira do abismo | .::Três coisas::.

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