Garrafa 453 – Sobre piscinas e outras águas paradas   Leave a comment

Recebemos, no ultimo sábado, a visita de um casal amigo acompanhado de sua filha, do genro e dos dois netinhos que estão na faixa entre um e dois anos. Uma vovozinha, a mãe de nossa amiga, uma bisavó portanto, para nossa alegria, esteve presente também.

Os meninos pequenos vieram com seus respectivos kits praia/piscina e nossa intenção inicial era de irmos todos juntos até a praia, no final da tarde, depois do almoço e de longas conversas para atualização das notícias de todos os integrantes das duas famílias amigas. Somos padrinhos de sua filha mais nova e eles de nossa filha do meio. Mas a sensação térmica de quase 50 graus, que acompanha a onda de forte calor que tem assolado a nossa cidade nas ultimas semanas, não recomendou uma caminhada com os meninos até o calçadão e o contato com a areia escaldante da Barra da Tijuca. Fomos para a piscina, então.

Moro nesse apartamento desde 2010 e, vejam só, me dei conta, por comentários das minhas filhas, que nunca tinha entrado na água da piscina do prédio. Mergulhos, só na água do mar que fica a algumas quadras de distância…

Há quem diga que os netinhos são seres especiais que fazem com que os avós (emprestados ou não) ganhem alma nova e, mais perto do fim do que do começo, se reconectem com sua infância distante. E como netinho de grande amigo é meu netinho emprestado, essa pode ser uma boa razão pra uma mudança de atitude: acompanhei meu grande amigo e seus netos dentro d’água que, aliás, estava cristalina e com temperatura agradável, sem nenhum problema e com grande prazer.

Os dois meninos, animados e preparados com boias de todos os tipos, monitorados de maneira permanente pelos pais, dentro e fora da piscina, foram também acompanhados em suas travessuras aquáticas pelo meu amigo, por minha filha e por mim.

Já no final da visita houve um apagão que desligou a iluminação de diversas quadras próximas, inclusive a nossa, e silenciou por quase uma hora todas as fontes eletrônicas de ruído ambiente, as domésticas e as da vizinhança. Pude então ficar bem quieto, sentado na varanda, e às voltas com essa questão do porquê de não ter dado muita bola para a nossa piscina, nos últimos tempos. Por que isso? Afinal gosto muito de estar em contato com a água desde pequeno, aprendi a nadar muito cedo e já frequentei muitas piscinas quando criança e na juventude. Fiz um curso e aproveitei a prática do mergulho durante muitos anos, e passei a maior parte da minha vida profissional na Marinha, cercado de água por todos os lados. Por que, então, tenho apresentado um comportamento de rejeição à água da piscina?

Um comentário do genro do meu amigo, recuperado da memória de nossas conversas durante a tarde, me deu a pista do que pode ser uma explicação plausível. Ele não se sentiu muito bem durante sua permanência dentro d’água e, com bom humor e certa ironia, nos disse que talvez tivesse ficado “mareado” com as pequenas ondulações da piscina, expondo sua sensibilidade a alguma sensação momentânea de falta de equilíbrio, apesar da água estar praticamente parada.

Água parada! Essa é a questão!

Água parada cria limo, cria lodo! Gritou a crença armazenada no fundo da consciência. E lembrei-me de uma citação de um livro sobre Cabala que li recentemente, comparando as águas do Rio Jordão com as do Mar Morto. As águas do rio, sempre em movimento, bebem na fonte de suas nascentes nas montanhas e não ficam estagnadas, criam vida ao longo de suas margens em seu caminho para desembocar em algum outro rio, ou no oceano. O próprio oceano, com suas correntes e marés, sempre em movimento, é fonte de vida, e foi a fonte da própria vida neste nosso pequeno planeta azul. As águas paradas do Mar Morto, por outro lado, que não escoam para lugar nenhum, só recebem, mas não compartilham, acabaram se tornando “um grande lago salgado” e isolado. Um “lago” que não se conecta com nada mais, de onde a vida simplesmente desapareceu.

Definitivamente, ao invés das águas das piscinas e de lagos isolados, prefiro as águas dos rios, das cachoeiras e do mar sem fim!

E pensando nisso lembrei-me também, com detalhes, de uma experiência traumática da infância, de que ninguém mais tomou conhecimento, até agora.

Quando tinha entre nove e onze anos, e morei por uns tempos na casa da minha avó materna em uma cidade do vale do Paraíba, no interior do Estado do Rio de Janeiro, meus padrinhos moravam em um bairro próximo em uma ótima casa com piscina. E eu os visitava com frequência, em busca de convivência com meu primo e primas. Em uma dessas visitas, fui sozinho para o setor do quintal onde se encontrava a piscina, que estava há algum tempo sem sofrer nenhuma manutenção ou limpeza. E, apesar do seu aspecto mais escuro e turvo, era um dia de verão e decidi entrar na água mesmo assim. Como testemunha dessa pequena aventura apenas um cão pastor alemão que ficava preso em um canil e que latia com força na minha direção, quem sabe para advertir-me do que estava para acontecer em seguida.

Ao entrar apressado na piscina, mesmo na área em que seria capaz de ficar de pé, não consegui manter o equilíbrio e firmar os pés no fundo, pela grande quantidade de lodo que estava acumulada nos ladrilhos. Fiquei patinando por muito tempo de barriga pra baixo, bebendo muita água, assustado com a situação e sem consegui tocar com as mãos na borda e manter a cabeça fora d’água. Lembro-me bem da água suja e de gosto esquisito, da qual sorvi afobado grandes goles, e da sensação dos dedos e da planta dos pés tateando em busca de firmeza, sem sucesso. Quando saí daquela situação, sei lá como, depois de um tempo que me pareceu uma eternidade, fiquei silencioso por vários minutos e não contei a ninguém sobre essa grande trapalhada. Podia ter me afogado sozinho, naquela tarde de verão, sem que ninguém soubesse onde estava e pudesse vir em meu auxílio…

É isso que acontece com água parada! Cria limo! Cria lodo! E vira depósito de larvas de mosquito, daqueles que infernizam nossas vidas de madrugada, zunindo ao ouvido e picando a pele sem a menor cerimônia. E é claro que não é isso que acontece com a piscina do meu prédio, mantida em ótimas condições com agua clarinha e tratada. Mas acho que essa questão da água parada é algo que, dos confins do meu subconsciente, pode explicar essa aversão, melhor dizendo, essa preferencia declarada e assumida pelas águas que se mantém em fluxo constante, que se movimentam.

É o que desejo para os meus netinhos emprestados: que sua passagem pelas piscinas seja breve, apenas o suficiente para familiarização com o meio líquido e que, no menor tempo possível, possam estabelecer e manter contato com as águas que se movem, as que compartilham seu frescor e vitalidade com o ambiente ao redor, e que possam assim também se manter, ao longo de suas vidas, o mais longe possível da estagnação e da preguiça.

Pausa para um breve haicai:

água parada
cria limo, cria lodo.
sem vida, de novo…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido – Mar Morto

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