Garrafa 329 – Mente evapora   Leave a comment

Sempre procuro aproveitar ao máximo os lindos dias de outono, com suas temperaturas amenas e céus de um azul profundo seguidos de noites agradáveis e estreladas. Pressentir o inverno que se aproxima faz minha alma ficar mais silenciosa e o corpo mais sensível. E a chegada de uma sequência de dias frios e chuvosos despertou meu desejo de antecipar a mudança do botão do aquecedor da posição “verão” para “inverno”. Fiz isso hoje, antes de tomar minha ducha diária.

Apesar de ainda não poder contar com um ofurô no meu banheiro, é durante o banho que entro em contato com meu corpo e aproveito, também, para fazer uma limpeza mental. Faço isso já há muito tempo e fiquei surpreso e feliz ao confirmar, durante minhas ultimas leituras, que essa é uma tradição oriental.

A experiência cinestésica e espiritual de se aproveitar o momento do banho para também limpar a mente é descrita por Murillo Nunes de Azevedo em seus livros “As raízes da criação” e “Ecologia mental”. Diz ele:

“O banho japonês não é um simples ato de lavar; é, antes de tudo, um ritual do corpo. Tudo é de madeira. O chão. As paredes. O teto. A tina. Só a água é água mesmo, e quase fervendo. Lave-se primeiro com sabão. Lave todas as partes, sem esquecer nenhuma. Mergulhe então no ventre materno, na tina profunda e fumegante. E contemple os desenhos da madeira. Sinta o calor na pele. O tempo desaparecendo no vapor. E a alma endurecida, aos poucos amolecendo. Amolecendo. Endo…”

E a leitura de sua experiência, vivida no Japão no Monte Koya, me fez reviver minhas breves visitas ao Mosteiro Zen Morro da Vargem em Ibiraçu, a partir dos anos 1980, e os banhos no ofurô, com direito à vista espetacular para a vegetação abundante que cerca o local.

Em minhas pesquisas na Internet, não encontrei fotos originais da sala de banho no mosteiro, localizado no Estado do Espírito Santo (até o local é inspirador) e posto algumas fotos alternativas para dar uma idéia do ambiente, que é muito mais espartano que o dessas imagens, e evocar sensações cinestésicas.

Essas suaves lembranças me dão inspiração para um breve haicai:

ducha gelada,
mergulho no ofurô,
mente evapora…

Eduardo Leal
Fotos de autores desconhecidos

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