Garrafa 193 – O Conselho de Kamala   4 comments

O tema do sexo é sempre assunto palpitante e um dos tópicos mais pesquisados nas ferramentas de busca na Internet. A partir da curiosidade infantil, passando pelos sobressaltos da adolescência e chegando à idade adulta, é tema de conversas, livros, pinturas, esculturas, filmes e, é claro, de muita ação cinestésica.

Compartilho neste post algumas informações e reflexões a esse respeito, porque durante os processos de Coaching Centrado em Valores e de Consultoria em Gestão Pessoal que tenho conduzido ao longo dos últimos anos o assunto sempre vem à tona. Isso acontece, principalmente, quando os Exploradores de Novas Possibilidades de Futuro analisam suas respectivas Áreas da Vida denominadas “SAÚDE” (Física / Emocional / Mental), “RELACIONAMENTOS” (Família / Trabalho / Pessoal) e, às vezes, “LAZER”.

Objeto de repressão severa em diversas culturas e épocas, em função de crenças religiosas ou de simples preconceito, a partir dos anos 1960 houve uma explosão de liberação da expressão sexual em várias partes do mundo, com a popularização das pílulas anticoncepcionais. Podemos observar, ao mesmo tempo, que essa liberação sexual nem sempre foi acompanhada da desejável e correspondente elevação do nível de consciência que poderia ser esperada das pessoas supostamente liberadas.

No mundo ocidental o sexo foi tema de interesse constante: cercado de hipocrisia e de repressão religiosa na Idade Média, passando pelo Renascimento e chegando aos trancos e barrancos à Idade Moderna como assunto de interesse científico. Esse interesse ganhou relevância com as pesquisas e trabalhos conduzidos no Século XX por Sigmund Freud, que buscou disseminar a ideia de que o desejo sexual é a energia motivacional primária da vida humana. Em sua obra, Freud fez surgir uma nova compreensão do ser humano: a de uma pessoa influenciada por seus desejos e sentimentos que criam em sua mente um tormento pela contradição entre esses impulsos e a vida em sociedade.

Já na tradição oriental, desde a mais remota antiguidade, sua importância também não foi desprezada. No Tantra Yoga, por exemplo, o sexo entra como parte fundamental no estabelecimento das raízes de uma família e parte importante da vida de um casal saudável. Por isso no Tantra o sexo também é ensinado como um ato sagrado, como uma forma de trazer prazer e alegria ao seu companheiro ou companheira e como a oportunidade do encontro entre o “deus masculino” e a “deusa feminina” que vive em cada um dos parceiros. O sexo, de acordo com essa concepção, é visto antes de tudo como uma prática de elevação espiritual. E no Tantra podemos encontrar também a prática do Maithuna, que é uma técnica que procura alcançar o domínio dos apetites sexuais.

Maithuna ou Mithuna é um termo sânscrito que, na maioria das vezes, é traduzido como a união sexual em um contexto ritualista. Apesar de alguns escritores, seitas e escolas como, por exemplo, a de Yogananda considerarem que este é um ato puramente mental e simbólico, outros entendem que a palavra Maithuna se refere claramente a casais (com integrantes do sexo masculino e feminino) realizando sua união no sentido físico e sexual. E essa união seria equivalente à oportunidade de realização de uma espécie de “limpeza madura” do casal apenas quando a união é consagrada pelo ato do casamento, ou pelo amor verdadeiro.

Confesso que tenho simpatia por essa concepção que reconhece “efeitos terapêuticos” e de “limpeza” por conta dessa ligação física, emocional e espiritual e de um certo esquecimento momentâneo dos próprios egos.

No entanto, segundo outras concepções, seria possível experimentar uma forma de Maithuna sem união física. O ato poderia existir em um plano metafísico, sem penetração sexual, através apenas da transferência de energia através dos seus corpos sutis. E é quando esta transferência de energia ocorre que o casal, encarnado como duas divindades e com a sublimação momentânea dos seus respectivos egos, confrontam a realidade última e experiências de bem-aventurança através da união dos seus corpos sutis.

Descobri também recentemente, em um Curso de Cabala de que estou participando, que esse encontro físico e sexual também é visto pelos Cabalistas com um dos momentos com maior capacidade de se gerar LUZ, desde que essa união seja tratada com o cuidado que o assunto merece, com ênfase nas preliminares, como uma oportunidade de doação e de compartilhamento, mais do que de simples recebimento, como um encontro sagrado e não apenas como uma ocasião para obtenção de gratificação instantânea e prazer automático.

Quando tenho que lidar com essas questões por minha própria conta, o faço acreditando firmemente que o sexo é o momento de maior intimidade possível entre duas pessoas, com troca de fluidos corporais, compartilhamento de emoções e, finalmente, com um encontro iluminado de duas almas que se buscam. E, portanto, entendo que o sexo deve ser precedido de cuidadosa avaliação e seleção, sem preconceitos desnecessários, mas ao mesmo tempo considerado com o devido respeito e atenção que um assunto dessa natureza, de máxima intimidade com alguém, deve ser tratado. Penso que o assunto é suficientemente importante para que se evite que simples tabus sem sentido como “virgindade” e “proibição de sexo antes do casamento” influenciem nas escolhas feitas com consciência e naturalidade por pessoas responsáveis.

Essa foi a ideia que procurei compartilhar com meus três filhos, especialmente com minhas duas filhas, quando lhes dei o meu voto de confiança dizendo que estava certo de que saberiam escolher muito bem quando e com quem fazer sua iniciação sexual.

Para ilustrar a delicadeza com que penso que o assunto deva ser tratado e vivenciado, escolhi para este post a imagem de “um casal” formado por dois bonecos infláveis em uma cama de pregos… Em que qualquer movimento em falso, ou estabanado, pode ser desastroso para ambos os participantes da festa do amor…

E sobre “o que”, que tipo de prática pode ser considerada saudável “dentro das quatro linhas” imaginárias que podem ser delimitadas pelo colchão em uma cama, a relva macia do campo, ou qualquer outro lugar onde o amor e o desejo entre um homem e uma mulher se façam presentes, fico com o conselho da jovem cortesã Kamala oferecido a Sidarta, ambos personagens do belo romance ou “poema indiano” “Sidarta” de Hermann Hesse, que li na juventude e que até hoje me inspira:

Os amantes não devem separar-se, depois da festa do amor,
sem que um parceiro sinta admiração pelo outro;
sem que ambos sejam tanto vencedores como vencidos,
de maneira que em nenhum dos dois possa surgir a sensação de enfado ou de vazio
e ainda menos a impressão desagradável de terem-se maltratado mutuamente.

Eduardo Leal
Ilustração de autor desconhecido

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4 Respostas para “Garrafa 193 – O Conselho de Kamala

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  1. Pingback: Garrafa 517 – Beijo seu beijo | Três Coisas

  2. Este post é de abril de 2009 e, durante algum tempo, só incluía a bela citação de Hermann Hesse que, como foi mencionado no texto, foi retirada de seu primoroso livro “Sidarta”, um de meus preferidos na vasta obra do autor humanista alemão. Estou relendo no momento “O Jogo das Contas de Vidro”, do mesmo autor.
    Seguindo sugestão de um bom amigo, pela relevância do tema, há três anos atrás resolvi incluir na postagem inicial alguns comentários adicionais para ampliar o que penso a respeito do tema do Sexo para os leitores do Blog. E, como procuro agir em todas as oportunidades, busquei fazê-lo com congruência (alinhamento entre o pensar, falar e agir).
    No dia de hoje, pela primeira vez desde 2011, alguém se deu ao trabalho de avaliar o conteúdo do post e o fez, segundo seus próprios critérios, atribuindo-lhe duas estrelas, ou seja, “pobre”, de acordo com a escala sugerida pelo WordPress (muito pobre; pobre, bom, muito bom, excelente). Sou grato por isso. Quando expomos nossas opiniões a respeito de qualquer assunto, estamos sujeitos a receber, de maneira reservada ou explícita, avaliações de indiferença, de discordância ou de concordância.
    Refletindo sobre possíveis maneiras de enriquecer o texto, sem nenhuma pretensão descabida de esgotar assunto tão vasto, e nem de agradar ou desagradar o autor da avaliação, cuja identidade não tenho como saber a menos que essa pessoa se identifique em algum momento no futuro, e sem saber se esse pode ser seu único motivo para fazer essa avaliação, acabei me dando conta de que não fiz nenhuma referência à questão do sexo homo afetivo. Aliás, hoje foi dia de “Parada Gay” em São Paulo.
    Em tempos de verdadeira “neura” e patrulha sistemática com relação ao que se convencionou chamar de “politicamente correto” e de, no meu entendimento, um discurso exacerbado em defesa de minorias de todos os tipos, sejam elas de natureza sexual, étnica, religiosa, social ou de qualquer outro tipo, com a divulgação de “cartilhas”, quer sejam pelo “Ministério da Educação” da época dos governos da quadrilha petista, ou da atual época da quadrilha peemedebista, quer sejam pelo “MST”, essa pode ser uma das causas do leitor ter avaliado o texto como pobre.
    Correndo o risco de ter essa avaliação rebaixada para “muito pobre” ou, o que talvez seja ainda pior, de ter essa única avaliação simplesmente apagada, o que poderia indicar simplesmente “total indiferença” pelas minhas opiniões, pretendo incluir no post, oportunamente, alguns parágrafos a respeito do que penso a respeito de relacionamentos homo afetivos.
    Lembrando sempre que “qualquer forma de amor vale a pena”, deixo meu abraço aos leitores do blog, em especial àqueles que se dispõe a expressar sua discordância ou concordância com o que encontram por aqui. Desde que essa expressão seja feita de maneira respeitosa, serei sempre grato por isso.

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