Garrafa 141 – Primeira vez   1 comment

Eles já se conheciam há alguns meses, mas o primeiro beijo tinha ocorrido apenas há algumas semanas. Intimidade progressiva, mas ainda bastante superficial. Eram adultos, já tinham vivenciado experiências de intimidade com outros parceiros, mas respeitavam um ritual de aproximação e conhecimento mútuo cauteloso.

O desejo crescia a cada encontro e uma pergunta povoava a mente dos dois: Quando aquela fronteira de pudor seria ultrapassada?

Sem nada definido previamente, mas ambos apenas suspeitando que era chegada a hora, encontraram-se naquela tarde de outono, num sábado, para um passeio à beira mar. Parece que tudo começa, além do limite do vale profundo que sempre começa na beira do mar… A vida começa na beira do mar…

O dia estava parcialmente nublado e soprava um vento sudoeste que fazia com que a pele dos dois ficasse o tempo todo bastante arrepiada. Ou seriam aqueles beijos trocados de maneira cada vez mais ousada, e as palavras sussurradas ao ouvido um do outro, cabelos ao vento, em um banco do calçadão do Leme?

Ok. Vamos sair daqui para um lugar onde possamos ficar a sós… Foi como se ambos tivessem dito isso ao mesmo tempo.

O motel escolhido naquela ocasião, há muitos anos atrás, ficava em outro bairro da cidade e tinha a avaliação de cinco coelhinhos em uma conceituada revista masculina, que ele lia apenas em caráter bissexto. Dizia que apreciava alguns artigos que encontrava por lá… Era o máximo no ranking desse tipo de facilidade colocada à disposição de jovens e velhos amantes. Queria bem impressioná-la e, também, escolher um local que não comprometesse negativamente um primeiro encontro de verdadeira intimidade.

A sós, finalmente, as características oferecidas pelo local e colocadas à disposição dos seus hóspedes transitórios não tiveram a menor importância. Uma cama quadrada, com lençóis limpos e macios foram mais do que o necessário e suficiente.

Eles começaram a se despir mutua e carinhosamente, com calma, delicadeza e trocando beijos apaixonados. Estariam se lembrando das sugestões contidas no “Conselho de Kamala”? Leves tremores podiam ser percebidos aqui e ali, a cada toque explorando alguma dobrinha ou área de pele ainda intocada.

E finalmente chegou o momento tão esperado. Ele se levantou, reduziu a iluminação e se despiu completamente, enquanto ela ainda mantinha nos quadris uma ultima peça intima.

Ele ainda se lembra do seu sorriso e do olhar maroto que ela lhe lançou, antes que o quarto mergulhasse em uma leve penumbra.

Até hoje, quando sopra um vento sudoeste, e a sua pele fica arrepiada na beira do mar, ele pensa naqueles instantes com carinho. E a brisa parece sussurrar ao seu ouvido esse breve haicai:

nenhuma vergonha,
ao ver que você sorriu,
da minha nudez…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Beira mar” na voz de Zé Ramalho.

Garrafa 174 - Intimidade (Consigo mesma e com o outro)

Anúncios

Uma resposta para “Garrafa 141 – Primeira vez

Assinar os comentários com RSS.

  1. O texto original do haikai, quando foi postado em 2008, era:

    não me envergonhei
    ao ver que você sorriu
    da minha nudez

    Fiz essa pequena alteração, no dia de hoje, para preservar a métrica do haicai na sílaba tônica.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: