Garrafa 114 – Nem sempre sou igual   Leave a comment

Nem sempre sou igual no que digo e escrevo. 
Mudo, mas não mudo muito.
 
A cor das flores não é a mesma ao sol 
de que quando uma nuvem passa 
ou quando entra a noite 
e as flores são cor da sombra.
Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores. 
 
Por isso quando pareço não concordar comigo,
reparem bem para mim: 
Se estava virado para a direita, 
voltei-me agora para a esquerda, 
mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés — 
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra 
e aos meus olhos e ouvidos atentos 
e à minha clara simplicidade de alma …
 
Alberto Caeiro/Fernando Pessoa
em O Guardador de Rebanhos
 

 
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