Arquivo da categoria ‘Poesia

Garrafa 485 – O pássaro   Leave a comment

Recebi na tarde de ontem, pelo correio, presente de aniversário que enviei para mim mesmo: o último livro de poesias de Zélia Guardiano “Caderno de Desapontamentos”, da Editora Penalux.

Obra cheia de delicadezas poéticas, que sorvi sofregamente de um só gole assim que chegou, será novamente degustada lentamente como convém fazer com o conteúdo das garrafas de vinho das melhores safras e procedências.

Transcrevo abaixo um dos poemas que me encantou:

Parece empalhado
O pássaro que
Ensimesmado
Pousa
Sobre o mourão
Da cerca
De arame farpado

Suas tênues penas
(Só as penas)
Sutilmente
Movem-se
Ao sopro
De uma leve brisa

Ninguém precisa
Perguntar-lhe:
Em que pensa?

Vê-se:
Com olhos
Embaçados
Fixos num ponto
Tenta decifrar
Enigma

(Seria a vida?)

Zélia Guardiano
Foto de autor desconhecido

Anu-branco rabo-de-palha

Garrafa 459 – Poesia do cotidiano   Leave a comment

Com atitude amorosa:
Acordo cedo, leio, escrevo e medito.
Passo a maior parte do dia estabelecendo e aprofundando relacionamentos.
Realizo algumas caminhadas apreciando o céu, o mar, os pássaros, as árvores e as pessoas.
Vejo o mundo da varanda.
Ouço música.
Faço uma dieta de notícias.
Quando tenho fome, como.
Quando tenho sede, bebo.
Quando tenho sono, durmo.

Sou grato por isso!

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

Poesia do cotidiano

Garrafa 454 – Alma vazia   Leave a comment

Há alguns dias atrás caí em uma armadilha. Uma armadilha do Ego.

Empolgado com meu próprio interesse pela poesia, e pela rima fácil, declarei meu amor de maneira discriminatória, com certo desprezo por quem não compartilha minhas preferências estéticas. Disse, e me arrependo de tê-lo feito, que: “quem não curte poesia me dá azia”.

Desde o início, senti uma certa náusea sim, um desconforto difuso… Mas agora estou certo de que foram causados pela minha própria atitude de pretensiosa superioridade. A leitura do texto atribuído a Mooji, que transcrevo abaixo, me fez refletir:

Se você acha que é mais “espiritual” andar de bicicleta ou usar transporte público para se locomover, tudo bem, mas se você julgar qualquer outra pessoa que dirige um carro, então você está preso em uma armadilha do ego.
Se você acha que é mais “espiritual” não ver televisão porque fode com o seu cérebro, tudo bem, mas se julgar aqueles que ainda assistem, então você está preso em uma armadilha do ego.
Se você acha que é mais “espiritual” evitar saber de fofocas ou noticias da mídia , mas se encontra julgando aqueles que leem essas coisas, então você está preso em uma armadilha do ego.
Se você acha que é mais “espiritual” fazer Yoga, se tornar vegano, comprar só comidas orgânicas, comprar cristais, praticar reiki, meditar, usar roupas “hippies”, visitar templos, e ler livros sobre iluminação espiritual, mas julgar qualquer pessoa que não faça isso, então você está preso em uma armadilha do ego.
Sempre esteja consciente ao se sentir superior. A noção de que você é superior é a maior indicação de que você está em uma armadilha egóica. O ego adora entrar pela porta de trás. Ele vai pegar uma ideia nobre, como começar yoga, e então distorce-la para servir o seu objetivo ao fazer você se sentir superior aos outros; você começará a menosprezar aqueles que não estão seguindo o seu “caminho espiritual certo”.
Superioridade, julgamento e condenação. Essas são armadilhas do ego.(Mooji)

É isso. A azia causada pela minha atitude, por minha própria alma momentaneamente vazia, me fez tomar um sal de frutas de verdade. Já me sinto melhor agora…

E fui depressa buscar outra rima, outra forma benigna de expressar minha preferência pela poesia. E fui também ao encalço de outra imagem para complementar a nova ideia. E encontrei na foto de uma bela mulher de nome poético, a Patrícia Poeta, quem sabe um incentivo saudável e bem humorado para alguém considerar a possibilidade de passar a apreciar a poesia. E sei que corro o risco de desagradar uma parcela do público feminino e, quem sabe, de parcela do público homossexual… Do público masculino não creio. Paciência, são as minhas preferências afinal.

E o novo haicai ficou assim:

alma vazia,
quem não curte poesia,
bem que podia…

Eduardo Leal
Fotos de autores desconhecidos

Garrafa 443 – Contra a correnteza   Leave a comment

Pode parecer contraditório para algumas pessoas, mas entendo que “nadar contra a correnteza, em direção à nascente do rio” não é a mesma coisa que “lutar contra a correnteza”. Podemos sempre encontrar caminhos de menor resistência, onde nossa própria força é mais que suficiente pra vencer a corrente existente.

O salmão salta no ar e, quem sabe, pode até contar com um ventinho a favor…

Não luto mais contra coisa alguma. Prefiro agir em favor do que considero importante. Aquilo a que opomos resistência ganha força! Sigo na direção que escolhi e, se alguém resolver me atacar por causa dessa escolha, me defendo…

Ao invés de “lutar contra” a corrupção, podemos “agir em favor” da honestidade (até mesmo prendendo corruptos, dentro da lei)…

Ao invés de “lutar contra a violência”, podemos agir em favor da paz (até mesmo prendendo guerrilheiros e terroristas, dentro da lei)…

Ao invés de “lutar contra” a doença, podemos “agir em favor” da saúde…

Ao invés de “lutar contra” a miséria, podemos “agir em favor” da prosperidade…

A energia flui para onde a atenção está! E ela deve estar em descobrir a nossa verdadeira natureza e, com congruência, em agir de acordo.

Pausa para um breve haicai:

um salmão em mim,
contra a correnteza,
vai até o fim…

Ou, em uma versão estendida, para um poema curto:

um salmão em mim,
contra a correnteza,
o mundo enfim…

um salmão em mim,
vai até o fim…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

Garrafa 441 – Déjà vu   1 comment

Fazia muito tempo que não lhe batia uma saudade tão grande!
Saudade salgada. De travar a língua.
Saudade doce sentia todo dia…

Naquele dia foi diferente.

Um passeio matinal por algumas ruas da cidade, disparou na memória aquela intensa sensação de “deja vu”…
Lugares sagrados em cada bairro, em cada esquina, verdadeira mina…

E todos os caminhos levavam ao mar… Um mar de lágrimas?

A pequena embarcação há muito havia partido. No atracadouro, no espaço vazio, reflexos do sol na água, como diamantes.

Melhor usar óculos escuros…

O vento marinho pareceu sussurrar um breve haicai:

como dois amantes,
estivemos aqui antes…
choro diamantes.

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Deja vu” Com Crosby, Stills, Nash & Young

choro diamantes

Garrafa 427 – Um certo ar matinal   1 comment

Pensativo, nesse final de uma tarde chuvosa de primavera, vasculhei a estante em busca de inspiração para encerrar o dia com dignidade, após ouvir que os problemas com o servidor de e-mail da minha conta mais antiga, que está “instável” desde segunda-feira, ainda não têm previsão de solução. Enquanto isso, alertas de erro aparecem a todo instante, sempre que tento baixar minhas mensagens, sem sucesso. Pequenas frustrações do dia-a-dia com reflexos indesejados no meu bom-humor habitual.

Lembrei-me imediatamente de um poema de Hermann Hesse que falava da importância de estarmos prontos para novos começos e expedi um mandado de busca e apreensão para mim mesmo. Encontrei-o em dois lugares diferentes, com dois títulos também distintos e com duas traduções ligeiramente diferentes. Em “O Jogo das Contas de Vidro” ele aparece como uma das obras póstumas do personagem José Servo com o título “Degraus”. Já na antologia poética “Andares”, aparece como o poema que emprestou seu nome à obra, com o título “Andares”.

Transcrevo e compartilho com os amigos essa pequena e delicada reflexão poética, retirada de “O Jogo das Contas de Vidro”, cuja tradução me agrada um pouco mais:

Assim como as flores murchas e a juventude
Dão lugar à velhice, assim floresce
Cada período de vida, e a sabedoria e a virtude,
Cada um a seu tempo, pois não podem
Durar eternamente. O coração,
A cada chamado da vida deve estar
Pronto para a partida e um novo início,
Para corajosamente e sem tristeza,
Entregar-se a outros, novos compromissos.
Em todo o começo reside um encanto
Que nos protege e ajuda a viver.
Os espaços, um a um, devíamos
Com jovialidade percorrer,
Sem nos deixar prender a nenhum deles
Qual uma pátria;
O Espírito Universal não quer atar-nos
Nem nos quer encerrar, mas sim
Elevar-nos degrau por degrau, nos ampliando o ser.
Se nos sentimos bem aclimatados
Num círculo de vida e habituados,
Nos ameaça o sono; e só quem de contínuo
Está pronto a partir e a viajar,
Se furtará à paralisação do costumeiro.

Mesmo a hora da morte talvez nos envie
Novos espaços recenados
O apelo da vida que nos chama não tem fim…
Sus, coração, despede-te e haure saúde!

Confesso que fui tocado por esse pequeno poema, que fala da inexorável passagem do tempo e de nosso inevitável destino de percorrer o espaço que nos corresponde, de preferência com jovialidade. Desde que o vi pela primeira vez, em algum momento da década de 1970, sinto que gosto especialmente dessa fala: “O coração, a cada chamado da vida deve estar pronto para a partida e um novo início, para corajosamente e sem tristeza, entregar-se a outros, novos compromissos. Em todo o começo reside um encanto que nos protege e ajuda a viver. Os espaços, um a um, devíamos com jovialidade percorrer, sem nos deixar prender a nenhum deles…”

Quando penso nisso, sinto novamente o frescor da manhã, mesmo daquelas mais nubladas, quando iniciamos cada novo dia com renovada disposição. E pensando que esse é um dos nossos grandes desafios, gostaria de transportar esse mesmo frescor para cada momento que se sucede, um após o outro, a cada chamado da vida, especialmente nesse fim de tarde chuvoso.

Um certo ar matinal… Acho que essa atitude mental deveria ser a minha ideal… Uma meta espiritual…

Isso! Corro para encontrar uma imagem que passe essa ideia de frescor matinal e organizar as ideias com a métrica de um haicai:

espiritual,
a atitude mental,
do ar matinal…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Morning Dance” com Spyro Gyra

Ar matinal

Garrafa 412 – Onde não havia poesia   1 comment

cada poesia
nos traz mil raios de luz,
onde não havia…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
No Dia do Poeta
Instruções de utilização: Ouvir “Morning Comes” com Acqua Fragile

raios de luz

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